A disrupção do Capitalismo Tradicional para o Capitalismo Consciente

Sabemos que o Séc.XXI não é a continuidade do Séc. XX, mas o seu rompimento. Algo tão falado, mas talvez ainda muito pouco compreendido na prática. A experiência com a pandemia nos trouxe um pouco mais de clareza, mas ainda parece que precisamos aprofundar a compreensão de como devemos avançar para os próximos anos e lidar com tantos novos desafios. Com o objetivo de esclarecer o ponto central deste artigo, vou relacionar com o mundo corporativo.

Ao refletirmos sobre Blockbuster vs Netflix, Uber vs Taxi e Blackberry vs Iphone, o que estes casos, bastante conhecidos, têm em comum? Sim, eles foram disruptores em seus mercados, mas como? A partir do modelo de negócio. Não basta apenas gerar um plano estratégico de negócio. Ainda que considere as melhores tecnologias e ferramentas ágeis, não é possível obter resultados a partir de um modelo de negócio obsoleto.

Para exemplificar, ainda que a Blockbuster tivesse um robô na recepção da locadora, com inteligência (IA) e estratégias de marketing nas redes sociais, isso tudo não seria o suficiente para se manterem no mercado pois o modelo de negócio não atende mais às novas demandas do mercado como a Netflix faz.

Quando se fala em E.S.G. (Enviromental, Social and Governance), ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU) e até em Sociedade 5.0, assim como tantas outras excelentes iniciativas, vemos uma grande dificuldade da adoção por parte das empresas e percebemos muito pouco impacto de transformações se comparado com a velocidade do aumento dos problemas globais, sejam naturais ou associadas às influências humanas. Com tantas especulações e oportunismos, muitos ainda se debatem em tentativas pontuais e outras acabam sendo consideradas “greenwashing”.

É fato que vivenciamos problemas globais que se agravam de forma exponencial, porém efetivamente não vemos empresas conseguindo implementar uma cultura consciente com decisões e ações dos negócios orientadas aos stakeholders. Compreendendo este cenário, agora podemos trazer para a questão central deste artigo. O que isso tem a ver com o Capitalismo?

Consideremos duas esferas: a empresarial e a de governo. Na esfera das empresas, presas em um modelo capitalista tradicional, acabam por concentrar-se somente no lucro (a todo custo), acreditando que tirar a vantagem de tudo lhe trará um crescimento acelerado e sucesso. Como já sabemos, no curto prazo pode até ser verdade, mas no longo prazo é bastante evidente que não é sustentável. Então, como conseguir romper os padrões tradicionais para um negócio mais consciente que considerem outros fatores primordiais para um crescimento de longo prazo?

É importante que repensem seus modelos de negócios, partindo pela clareza do propósito maior da organização. Sendo vivenciada e transformada em uma cultura orientada aos stakeholders e sustentada por uma liderança consciente de que todas as decisões e ações tomadas podem gerar consequências positivas ou negativas ao longo do tempo e como lidar com isso.

Um modelo de negócio adaptável e ágil permitirá que possa, junto ao seu ecossistema, gerar continuamente valores mútuos. Mas não bastam as empresas se transformarem, se as lideranças dos Estados Nações não fizerem o mesmo. De nada adianta programas sustentáveis quando a medida de riqueza de um país se concentra apenas no conhecido PIB (Produto Interno Bruto). Considero isso com base na proposição do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável do IISD, apresentado em 2014, com o projeto Medindo a Riqueza para Promover o Desenvolvimento Sustentável, que incentiva governos e cidadãos a irem “além do PIB” como medida fundamental do progresso social.

Eles citam uma frase do senador americano Robert F. Kennedy, alertando já em 1968, que o PIB mede “tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”. E argumentam que o PIB é uma boa medida da renda nacional, mas não reflete a qualidade de vida e o progresso social. Enquanto os países correm para o topo do ranking mundial de crescimento do PIB, vários exemplos provam que essa concepção de progresso estão sendo enganosas:

  • COVID-19: o PIB do Vietnã é apenas 1% do dos Estados Unidos, mas o Vietnã registrou apenas 35 mortes por COVID em 22 de setembro de 2020, enquanto os Estados Unidos tiveram mais de 200.000 mortes. Em termos per capita, o Vietnã se saiu cerca de 1.700 vezes melhor que os EUA na contenção da pandemia.
  • Incêndios do Sábado Negro na Austrália: em fevereiro de 2009, resultaram em 173 mortes, 414 feridos, 450.000 hectares queimados e 3.500 prédios destruídos. Ao mesmo tempo, o PIB australiano aumentou US$ 4 bilhões ( Stanley, 2020).
  • Degradação da terra na Etiópia: O crescimento do PIB da Etiópia atingiu 13,5% em 2004 e permaneceu acima de 5% desde então. No entanto, a degradação da terra tem sido uma ameaça crítica no país. Mais de 85% da terra foi degradada em vários graus (Gebreselassie et al, 2016). As principais causas da degradação da terra na Etiópia são o rápido aumento da população, severa perda de solo, desmatamento, baixa cobertura vegetal e produção agrícola e pecuária desequilibrada (Taddese, 2001). Nenhum desses fatores é capturado pelo crescimento robusto do PIB do país.
  • Recuperação da recessão global: Nos primeiros três anos da recuperação da crise financeira global de 2008, cerca de 91% dos ganhos foram para as economias de 1% do topo. ( Stiglitz, 2019).

Como podemos ver, o PIB por si só, não reflete muitos dos componentes básicos do progresso social. Não aborda igualdade de gênero, saúde, educação, inclusão social, distribuição de renda ou qualidade ambiental. Por exemplo, educação e saúde são vistos como custos para a sociedade, deixando de levar em conta o valor da educação e dos resultados de saúde (como produtividade), tão importantes para o bem-estar de longo prazo da sociedade.

A proposição é ampliar a compreensão sobre a riqueza como a soma total dos ativos que possuímos como sociedade. A riqueza é importante porque representa os recursos que temos à mão hoje para garantir que nossas atividades sociais e econômicas continuem no futuro. Sugere-se assim cinco tipos fundamentais de ativos que uma nação possui como fonte de riqueza:

1. O capital produzido: consiste em estradas, ferrovias, portos, casas, maquinário e uma grande variedade de outros ativos manufaturados encontrados na economia.

2. O capital natural: inclui recursos naturais de mercado, como madeira, minerais, petróleo e gás. Também inclui ecossistemas de todos os tipos; por exemplo, pântanos que ajudam a criar água potável e florestas que atuam como depósitos de carbono. 

3. O capital humano: é composto pelo conhecimento coletivo, habilidades e capacidades da força de trabalho – o resultado da aprendizagem ao longo da vida em ambientes formais e informais.

4. O capital financeiro: abrange ações, títulos e outras formas de ativos financeiros. Os investimentos de governos, empresas e famílias geralmente visam a formação de estoques de capital produzido e financeiro.

5. O capital social: representa as normas e comportamentos que definem as interações entre os membros da sociedade, incluindo como as pessoas se sentem seguras em suas comunidades, inclusão e confiança em instituições importantes.

O relatório de Riqueza Inclusiva (2018), apresentado pela ONU, também consideram os itens acima, corroborando que a avaliação e valorização do capital natural e a mudança na riqueza inclusiva/abrangente per capita ao longo do tempo tem o potencial de acompanhar o progresso na maioria dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Sendo assim, que possamos repensar, a partir de um novo modelo, as ações que precisam ser tomadas, tanto pelas iniciativas privadas como públicas, que verdadeiramente impactem positivamente e de forma sustentável (econômica, social e ambiental), o mundo. Como citado pelo Fórum Econômico Mundial: “Que as lideranças dos Estados possam mudar as relações de interesses mútuos por valores mútuos”. Este artigo é apenas um convite inicial sobre a reflexão, ficando aberto para complementações e aprofundamentos.

Fábio Ban é conselheiro na Filial Regional do Capitalismo Consciente em Curitiba (PR).

Referências:

1. https://www.iisd.org/projects/measuring-wealth-promote-sustainable-development

2. https://www.unep.org/resources/inclusive-wealth-report-2018


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