A importância da disrupção dos valores culturais para o exercício da criatividade

Existe uma crença de que a criatividade é algo nato e, por isso, somente algumas pessoas (com sorte), são destinadas a serem criativas. No entanto, a criatividade é uma habilidade inerente ao ser humano, portanto, todas as pessoas são criativas, sem qualquer relação com o destino. O que acontece é que a  criatividade e a imaginação são as coisas mais difíceis de se manter em um mundo que exige alta performance, alta produtividade, alta pressão e resultados a curto prazo. Por isso e, infelizmente, na maior parte do tempo operamos nos negócios com nosso sistema nervoso instintivo de “lutar ou fugir”, característico em situações de alta pressão (como fugir de um predador), estreitando totalmente o foco e, ao mesmo tempo, eliminando a criatividade.

Brendan Dawes, um artista que usa processos generativos envolvendo dados, aprendizado de máquina e algoritmos para criar projetos, entende que para ser criativo é preciso fazer absolutamente nada. Para ele, em um mundo onde estar “ocupado” é considerado um símbolo de status, torna-se ainda mais importante se desligar totalmente. E acredita que é em tempos de quietude que todas as diferentes informações que consumiu, tanto ativa quanto passivamente, se misturam para formar novas ideias.

Segundo The School of Life e Stephen Little, esse movimento de prestar atenção às experiências internas e externas, porém de forma gentil e curiosa, chama- se mindfulness. Significa o desenvolvimento das habilidades de estarmos conscientes de nossas experiências (prazerosas ou não), para aprendermos a responder mais sabiamente às situações, ao invés de simplesmente reagimos a elas automaticamente. Quando temos uma percepção mais clara do momento presente, as nossas decisões são melhores, impactando a saúde, as relações com os outros, e a realização pessoal e profissional. 

O problema é que passamos muito tempo no “piloto automático”, apenas reagindo, o que é o estado oposto ao mindfulness.  Com isso, deixamos de ser criativos.

O livro A Coragem de Ser Imperfeito, chama esse processo de estar sempre ocupado ou loucamente atarefado de “entorpecimento”. Assim, criam-se vícios que podem ser horas compulsivas de trabalho, excesso de álcool, café, açúcar, compras, horas na televisão, celular, remédios, entre outros. A ideia é a de que se estivermos ocupados, conseguimos anestesiar os nossos sentimentos, amortecendo a dor e a dificuldade. Mas, juntamente com isso, nos desconectamos do mais importante: o amor, a alegria, a aceitação e a criatividade. 

De alguma forma, cada um de nós endossa este processo que acaba com a criatividade, quando o trabalho e a produtividade passam a ter relevância central na construção da nossa identidade. Segundo a pesquisa Consumidor do futuro 2022, (WGSN Insight), este movimento é chamado de “trabalhismo”. E faz parte dele um grupo que valoriza a quantidade de coisas realizadas como se fosse um mérito ou status. Assim, a importância está na quantidade de reuniões, de horas trabalhadas, e de noites de sono perdidas. Incluindo também as exigências de conexão, o que tem gerado altos índices de ansiedade, depressão e exaustão.

No entanto, segundo esta mesma pesquisa, algumas empresas já entenderam e definiram novas políticas, e algumas estão implementando limites – e os incorporando aos indicadores de desempenho (KPIs). Em Mumbai, a WeWork inseriu a diretriz do “direito de se desconectar”, estimulando os funcionários a não responderem e-mails de trabalho depois das 19h. Em Osaka, a empresa de software YRGLM tem um esquema de férias de nove dias que “proíbe” os funcionários de se comunicarem com a empresa. Na cidade chinesa de Zhuhai, as autoridades baniram o app WeChat depois do horário de trabalho. No Japão, a Microsoft testou uma semana de quatro dias de trabalho e notou que a produtividade aumentou quase 40% e os custos com eletricidade foram reduzidos em 23%  

Sem dúvidas, as mudanças mais simplórias trazem resultados positivos. Porém,  ainda assim, para que a criatividade floresça em toda a sua potencialidade, é necessário rever algumas crenças e valores culturais, porque as nossas ideias só se tornam úteis se forem testadas no mundo real, muitas vezes gerando resultados inesperados para, a partir daí, estimular novos pensamentos e ideias. As pessoas criativas fazem com que os ambientes sejam mais livres e respeitosos, aumentando a capacidade individual de articular limites, autonomia, e os projetos são de maior qualidade. Enquanto isso, ambientes direcionados ao “trabalhismo” trazem cansaço, pessoas tristes, ressentidas, ansiosas, com sofrimento psicológico, Burnout, faltas no trabalho e produção pior. É um paradoxo, porque se a criatividade tem sido considerada como uma das mais importantes habilidades, ainda falta colocar o bem-estar de cada pessoa no centro de importância, para que, de fato, a criatividade possa ser praticada por todas as pessoas, em todos os lugares.


Daniela Jacques é fundadora da Poesis, uma consultoria dentro da economia criativa, DNA Corporativo e pesquisas etnográficas. Membro do Laboratório de Economia Criativa da ESPM. Publicitária com MBA Marketing COPPEAD. Pós-graduação em Pesquisa de Comportamento e Antropologia do Consumo Future Concept Lab (Milão) SENAI/CETIQT e Mestre em Gestão da Economia Criativa.

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