Água, por que precisamos falar sobre ela

Por Leonardo Lima*, para o Instituto Capitalismo Consciente Brasil

Sou um eterno intrigado do porquê damos pouco valor à água. E não digo pelo seu custo, mas devido à sua grande importância para todos nós.  

Difícil que ela apareça nas rodas de conversa, que alguém se disponha a puxar um papo sobre ela. A não ser que falte ou venha de forma destruidora nas enchentes. Aí sim ela ganha o destaque que merecia ter todo o tempo. Mas passada a crise, ela vai desaparecendo e volta ao seu eterno papel de coadjuvante. 

Fico pensando que talvez seja porque não tenhamos informação suficiente sobre ela ou que não seja algo muito atrativo para conversar, já que não tem cor, não tem partido político e não tem gosto. Então fica difícil gerar polêmica em cima dela.

Nesse artigo, espero trazer informações com o objetivo de despertar a atenção para esse valioso recurso, e ajudar para que ele tome seu devido protagonismo no dia a dia. 

Prometo que buscarei ser o menos acadêmico possível, para que você não pare a leitura pelo meio do caminho. 

Quanto mais água, melhor

Para início de papo, como diria minha mãe, é melhor começar do início. 

A bem da verdade, somente posso escrever este artigo porque estou vivo e graças à água. Sem água não há forma de vida como a conhecemos. Nosso corpo tem aproximadamente 70% do peso total constituído por ela. 

No meu caso, dos 76kg que peso, levo 53kg de água ou aproximadamente 10 pacotes de 5kg de arroz para facilitar a compreensão de peso. 

Ela, além de hidratar, leva os nutrientes, oxigênio e sais minerais até as células. Também expulsa as substâncias tóxicas do corpo por meio do suor e da urina. São inúmeros os benefícios da ingestão diária de água na maior quantidade possível. Quanto mais, melhor. 

Sem ela não vivemos, mas será que estamos tranquilos com sua quantidade no planeta? Se pegarmos uma carona num foguete SpaceX do nosso amigo Elon Musk e olharmos o planeta de cima, tudo indica que sim. Do que observamos, 2/3 são água. Moramos no planeta Água que chamamos de Terra.  

Ufa! Então podemos concluir e ficarmos tranquilos, porque de falta d’água não morreremos? 

Lamento informar que temos que olhar com mais cuidado e observar alguns detalhes. 

É verdade que temos muita água e que esse elemento quimicamente conhecido como H2O existe em abundância no planeta. Mas a pergunta que vale um milhão é: ela está disponível para nosso uso e consumo?

A resposta que nos tira o sono e deveria ser do conhecimento de todos é: NÃO. 

Do total de água existente no planeta, 97% está nos oceanos e é salgada. Portanto, não é potável na forma em que está. Os outros 3% estão divididos entre água congelada nos polos (2%) e, finalmente, sobra o 1% que está disponível para nosso consumo nos rios, lagos e água subterrânea. 

A essa altura imagino que a ficha tenha começado a cair e que você tenha entendido que a água merece mais atenção do que damos a ela hoje, não? 

Mas vamos prosseguir com o nosso caminho de entender por que a água tem que ser protagonista em nossas vidas e nas atitudes que tomamos.

Fontes de desperdício da água

Do 1% de água doce que temos disponível, passamos à fase de entender e saber como a utilizamos. 

A agricultura é o setor que mais utiliza água, consumindo aproximadamente 70% do total de água doce disponível no planeta. Recordem que estamos falando que temos somente 1% disponível para uso e esse setor já fica com 70%. 

Mas o pensamento que imediatamente nos vem à cabeça é: “Menos mal! Estamos usando essa água para produzir os alimentos que necessitamos para viver”. Este pensamento seria correto se ela estivesse sendo utilizada e descartada da forma mais eficiente, o que não é a realidade existente na maior parte do planeta.

Com a agricultura figurando como o setor de maior utilização de água doce do planeta, você consegue imaginar o tamanho do estrago se o seu uso não for o mais eficiente e produtivo possível?

E se eu disser que de toda a produção anual de alimentos global, 30% é perdida entre o campo e a mesa de consumo em nossas casas? Isso mesmo! Anualmente são perdidos 1.3 bilhões de toneladas de alimentos. Automaticamente significa que toda a água consumida para essa produção também foi perdida.  

A história fica ainda mais triste quando esses alimentos vão para os aterros sanitários. Entram em putrefação e passam a emitir gases de efeito estufa, gerando a tormenta perfeita. 

Lembremos também que da água utilizada na agricultura e que não ficou nos alimentos, parte evapora e o restante vai parar nos lençóis freáticos, rios e lagos. Se a produção agrícola não é realizada de forma sustentável e responsável, essa água conterá uma série de substâncias químicas que irão contaminar as fontes de onde coletamos água para o seu devido tratamento e posterior consumo. 

Resumindo, o uso consciente de água na agricultura será cada vez mais vital para todos nós. 

Fora a agricultura, os outros dois grandes setores que consomem a água doce do planeta são: indústrias, com aproximadamente 22%; e os municípios, para o consumo domiciliar, com aproximadamente 8%. 

Esses números podem variar de região para região e de país para país também, mas dão uma ideia da distribuição no uso da água potável.  

Pegada Hídrica 

Segundo o Banco Mundial, devido ao crescimento populacional, urbanização e mudanças climáticas, espera-se que a competição por recursos hídricos aumente, com impacto particular na agricultura. Estima-se que a população aumente para mais de 10 bilhões até 2050 e, seja urbana ou rural, essa população precisará de alimentos e fibras para atender às suas necessidades básicas. Aliado ao aumento do consumo de calorias e alimentos mais complexos, que acompanha o crescimento da renda no mundo em desenvolvimento, estima-se que a produção agrícola precisará se expandir em aproximadamente 70% até 2050.

Em 2002, Arjen Hoekstra, enquanto trabalhava no Instituto UNESCO-IHE para Educação Hídrica, criou a pegada hídrica como uma métrica para medir a quantidade de água consumida e poluída para produzir bens e serviços ao longo de toda a sua cadeia de abastecimento.

O interesse pela pegada hídrica cresceu rapidamente após sua introdução na literatura acadêmica. Em 2007, empresas, em particular empresas de alimentos e bebidas, como Unilever, SABMiller, Heineken, Coca-Cola, Nestlé e Pepsico, tornaram-se cada vez mais conscientes de sua dependência hídrica e do risco relacionado à água que suas empresas enfrentam.

Em 2008, Hoekstra, professor de gestão da água na Universidade de Twente desde 2005, juntamente com os principais players globais de empresas, sociedade civil, organizações multilaterais e academia, fundou a Water Footprint Network com o objetivo de reunir algumas das mentes mais brilhantes comprometidas para demonstrar como a Avaliação da Pegada Hídrica pode nos ajudar a superar os desafios do uso insustentável da água.

A pegada hídrica é uma medida da apropriação de água doce pela humanidade em volumes de água consumidos e/ou poluídos.” 

Nesse ponto já é hora de perguntarmos: qual o meu papel nisso tudo?

Primeiro, necessitamos ter a consciência de que cada gota de consumo conta e de que, como consumidores individuais, somos os menos representativos na equação de consumo global.

Uma vez feita nossa parte, podemos atuar através de nosso poder de compra e influência. Necessitamos e podemos privilegiar empresas que possuam programas de gestão de água e metas claras para o seu uso eficiente e responsável. 

Da mesma forma, necessitamos entender de que bacia hidrográfica vem a água que consumimos e a empresa de saneamento que nos abastece. Independente de qual seja, sempre poderemos questionar e solicitar melhorias de performance nessa gestão.

Água: do excesso à escassez 

Já vimos que sem ela não há vida, que somente 1% de toda a água do planeta está disponível para o consumo e que a agricultura leva 70% desse total. Mas se não bastasse o que vimos até agora, sou obrigado a incluir um ingrediente a mais nessa receita para tornar a água um protagonista real em nossas vidas.

Convido as mudanças climáticas para se juntarem a nós.

Certamente você já ouviu falar que atravessamos um período crucial de nossas vidas, com o aumento constante da temperatura média do planeta. Simplificando os impactos das mudanças climáticas em relação à água, percebemos alterações nas condições hidrológicas, incluindo a dinâmica da neve e do gelo. O degelo causado pelas temperaturas mais elevadas vem causando contínua elevação do nível dos oceanos, colocando ilhas e cidades costeiras em risco. 

Segundo a ONU, em 2050 o número de pessoas em risco de inundações aumentará dos atuais 1,2 bilhões, para 1,6 bilhões. Por outro lado, teremos um aumento significativo das pessoas que não têm água para seu consumo.

No início e nos meados da década de 2010, 1,9 bilhões de pessoas ou 27% da população global já viviam em áreas com potencial de escassez de água. Devido às mudanças climáticas, esse número deve passar para 2,7 a 3,2 bilhões em 2050.

Os números são assustadores. Mas, acredite, eles estão corretos. Estamos falando de bilhões de pessoas que sofrem com o excesso ou a falta de água. A poluição da água também piorou desde a década de 1990 em quase todos os rios da América Latina, África e da Ásia, com poluição severa por patógenos, afetando cerca de um terço de todos os trechos de rios nessas regiões.

A escassez de água também tem grave consequência social, afetando mulheres e meninas que são responsáveis pela coleta da água em 8 de cada 10 domicílios que sofrem com falta de água. Elas têm que percorrer, muitas vezes, quilômetros de distância entre suas casas e a fonte de água mais próxima. 

Essa mesma escassez de água ocasionará o deslocamento de aproximadamente 700 milhões de pessoas até 2030, segundo o Global Water Institute. Hoje, uma em cada quatro pessoas, que representam dois bilhões de pessoas, carecem de água potável no mundo.

Outro dado ainda mais relevante é de que 3.6 bilhões de pessoas não têm acesso ao tratamento de esgotos. Com relação à saúde, a OMS estima que são necessários 50 litros de água por pessoa para garantir que as necessidades básicas sejam atendidas, mantendo os riscos de saúde pública em nível baixo. 

Para o consumo individual, a ONU estima que sejam necessários 110 litros/dia/pessoa para atender a um padrão de vida satisfatório e confortável. Nesse ponto, vale você buscar a conta de água da sua casa e verificar o seu consumo. Será que está próximo dos 110 litros/dia por pessoa como nos orienta a ONU? 

Imagino que depois de tantos números, sua cabeça comece a questionar de onde está vindo essa água que você acabou de usar para lavar os pratos do almoço da sua casa. Ela vem de redes de abastecimento, que podem ser públicas ou privadas, e que tornam a água doce disponível em água potável. 

A água como protagonista

Imaginem que estamos, em esmagadora maioria, muito distantes das fontes de água naturais e puras, onde poderíamos tomá-la com nossas próprias mãos. A água para nosso consumo necessita passar por tratamentos que, muito simplificadamente, tratam de remover as impurezas e proteger a água contra qualquer agente que possa fazer mal à nossa saúde. 

Se você ainda não tinha parado para observar, durante todo o dia, quando utilizamos a água tratada, tudo o que fazemos é sujá-la de diferentes formas. Por essa simples razão, é fundamental que usemos de forma muito consciente a água tratada. Os tratamentos de água têm suas limitações e podem tornar-se ineficientes para certos tipos de contaminantes dependendo de sua composição e quantidade. 

Mas o que se passa no Brasil? Como estamos com esse assunto?

Para saber ainda mais sobre o que se passa no saneamento no Brasil, recomendo fortemente a leitura da 14ª edição do Ranking do Saneamento com o foco nos 100 maiores municípios brasileiros, realizado e publicado pelo Instituto Trata Brasil. 

O relatório faz uma análise dos indicadores do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), ano de 2020, publicado pelo Ministério do Desenvolvimento Regional.

Segundo o Instituto Trata Brasil: “A ausência de acesso à água tratada atinge quase 35 milhões de pessoas e 100 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto, refletindo em centenas de pessoas hospitalizadas por doenças de veiculação hídrica. Os dados do SNIS apontam que o país ainda tem uma dificuldade com o tratamento do esgoto, do qual somente 50% do volume gerado são tratados – isto é, mais de 5,3 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento são despejadas na natureza diariamente.” 

Poderia escrever sem parar por mais páginas e páginas, mas certamente não encontraria leitores como você que chegou até aqui. 

Espero que esse resumo tenha despertado em você a necessidade de que é necessário falar e tomar ações relacionadas à água, fora dos períodos de escassez ou excesso.  

Fica a reflexão e proposição para responder à pergunta abaixo:

Em que planeta queremos viver no futuro? 

Da nossa resposta e ação dependerá o tipo de futuro que teremos pela frente. 

E sem dúvida alguma, a água deverá ser protagonista. 

Para saber mais sobre a água, acesse o SDG Observatory, HUB de informações criado pela 

Dreams and Purpose Consulting, para informar sobre tudo o que acontece em torno dela. 

No HUB você encontrará iniciativas como a Coalizão Cidades pela Água, que em 2020  completou os seus primeiros 5 anos de atividades e, segundo a TNC, foram alavancados R$ 239,7 milhões para a implantação dos projetos em 6 das 12 bacias hidrográficas nas regiões metropolitanas previstas: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília e Vitória, além de um piloto de sucesso em Balneário Camboriú (SC), que começa a ser replicado em outras bacias do país com mecanismos de políticas públicas de recursos hídricos e saneamento e instrumentos financeiros. As ações no campo superaram a marca de 124 mil hectares conservados, restaurados e sob melhores práticas de uso do solo, com mais de R$ 20 milhões destinados ao Pagamento por Serviços Ambientai (PSA), beneficiando 3.924 famílias nas áreas de cabeceiras das bacias hidrográficas onde ocorrem as intervenções.

Referências: 

  1. https://waterfootprint.org/en/water-footprint/what-is-water-footprint/
  2. https://www.tratabrasil.org.br/ 
  3. https://www.unwater.org/water-facts/ 
  4. https://globalwater.osu.edu/ 
  1. https://www.worldbank.org/en/topic/water-in-agriculture#1 
  1. https://www.tnc.org.br/o-que-fazemos/nossas-iniciativas/coalizao-cidades-pela-agua/coalizao-5-anos/ 
  1. https://www.tnc.org.br/ 

*Leonardo Lima é conselheiro do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, founder e CEO da Dream and Purpose Consulting.

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