Fórum Econômico Mundial 2023: o mundo em estado de alerta

Realizada entre os dias 16 e 20 de janeiro, em Davos, na Suíça, a 53ª edição do Fórum Econômico Mundial reuniu líderes mundiais, economistas, investidores e empresários para debater importantes questões sobre a economia global.

Com discussões que se desenrolaram a partir do tema “Cooperação em um mundo fragmentado”, a reunião anual apresentou dados que acentuaram o senso de urgência e a importância da colaboração para lidar com os principais desafios globais.

O cenário de tensão foi endossado já durante a reunião de abertura do evento, no dia 16 de janeiro, com a publicação do último Chief Economics Outlook – Perspectivas dos Economistas Chefes – pesquisa realizada com um grupo de economistas seniores de agências internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, bancos de investimentos, multinacionais e grupos de resseguros, e que trouxe o prenúncio de uma recessão global em 2023. 

Entre as causas para a crise, de acordo com a diretora-executiva do Fórum Econômico Mundial, Saadia Zahidi, estão “a alta inflação, o baixo crescimento e a alta dívida”, que “reduzem os incentivos para os investimentos necessários para voltarmos ao crescimento e elevarmos os padrões de vida dos mais vulneráveis ​​do mundo”. 

E vem mais por aí!

Com o mundo à beira de uma era de baixo crescimento e baixa cooperação, ações climáticas e em prol do desenvolvimentos humanos correm o risco de ficar em segundo plano, “convergindo para moldar uma década única, incerta e turbulenta”, como mostra a 18ª edição do Global Risks Report 2023 ou Relatório de Riscos Globais 2023, produzido em parceria com a Marsh & McLennan e o Zurich Insurance Group.

Entre as principais constatações do relatório estão:

– O custo de vida domina os riscos globais nos próximos dois anos, enquanto o fracasso da ação climática domina a próxima década

A próxima década será caracterizada por crises ambientais e sociais, impulsionadas por tendências geopolíticas e econômicas subjacentes. A “crise do custo de vida” é classificada como o risco global mais grave nos próximos dois anos, com pico no curto prazo. “Perda de biodiversidade e colapso do ecossistema” é visto como um dos riscos globais de deterioração mais rápida na próxima década. Entre os riscos apresentados, tanto a curto como a longo prazo, estão “Confronto geoeconômico” e “Erosão da coesão social e polarização social”, “Crime cibernético generalizado e insegurança cibernética” e “Migração involuntária em larga escala”.

– Com o fim de uma era econômica, a próxima trará mais riscos de estagnação, divergência e angústia

As consequências econômicas do COVID-19 e da guerra na Ucrânia provocaram uma inflação vertiginosa, uma rápida normalização das políticas monetárias e iniciaram uma era de baixo crescimento e baixo investimento. A continuação da inflação impulsionada pela oferta pode levar à estagflação, cujas consequências socioeconômicas podem ser graves, dada uma interação sem precedentes com níveis historicamente altos de dívida pública. Mesmo que algumas economias experimentem uma aterrissagem econômica mais suave do que o esperado, o fim da era das taxas de juros baixas terá ramificações significativas para governos, empresas e indivíduos. Os efeitos indiretos serão sentidos de forma mais aguda pelas partes mais vulneráveis ​​da sociedade e pelos Estados já frágeis, contribuindo para o aumento da pobreza, fome, protestos violentos, instabilidade política e até colapso do Estado.

– A fragmentação geopolítica impulsionará a guerra geoeconômica e aumentará o risco de conflitos em vários domínios

O recente aumento nos gastos militares e a proliferação de novas tecnologias para uma gama mais ampla de atores podem levar a uma corrida armamentista global em tecnologias emergentes. O cenário de riscos globais de longo prazo pode ser definido por conflitos em vários domínios e guerra assimétrica, com a implantação direcionada de armamento de nova tecnologia em uma escala potencialmente mais destrutiva do que a observada nas últimas décadas. Os mecanismos transnacionais de controle de armas devem se adaptar rapidamente a esse novo contexto de segurança, para fortalecer os custos morais, reputacionais e políticos compartilhados que atuam como um impedimento à escalada acidental e intencional.

– A tecnologia exacerbará as desigualdades, enquanto os riscos da segurança cibernética continuarão sendo uma preocupação constante

Estimulados por auxílios estatais e gastos militares, bem como por investimentos privados, a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias emergentes continuarão em ritmo acelerado na próxima década, gerando avanços em IA, computação quântica e biotecnologia, entre outras tecnologias. Para os países que podem pagar, essas tecnologias fornecerão soluções parciais para uma série de crises emergentes, desde o enfrentamento de novas ameaças à saúde e uma crise na capacidade de assistência médica até o aumento da segurança alimentar e a mitigação do clima. Para aqueles que não podem, a desigualdade e a divergência crescerão. Juntamente com o aumento do crime cibernético, as tentativas de interromper recursos e serviços habilitados para tecnologia crítica se tornarão mais comuns, com ataques previstos contra agricultura e água, sistemas financeiros, segurança pública, transporte, energia e infraestrutura de comunicação doméstica, espacial e submarina.

– Os esforços de mitigação e adaptação climática são configurados para uma troca arriscada, enquanto a natureza entra em colapso

As crescentes demandas de recursos dos setores público e privado de outras crises reduzirão a velocidade e a escala dos esforços de mitigação nos próximos dois anos, juntamente com o progresso insuficiente no apoio à adaptação necessário para as comunidades e países cada vez mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas. À medida que as crises atuais desviam recursos dos riscos que surgem a médio e longo prazo, os encargos sobre os ecossistemas naturais aumentarão devido ao seu papel ainda subestimado na economia global e na saúde global do planeta. A perda da natureza e as mudanças climáticas estão intrinsecamente interligadas – uma falha em uma esfera afetará a outra. Sem mudanças políticas ou investimentos significativos, a interação entre os impactos das mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, a segurança alimentar e o consumo de recursos naturais acelerará o colapso do ecossistema, ameaçará o suprimento de alimentos e os meios de subsistência em economias vulneráveis ​​ao clima, amplificará os impactos dos desastres naturais e limitará o progresso futuro sobre mitigação climática.

As crises de alimentos, combustível e custos exacerbam a vulnerabilidade social, enquanto o declínio dos investimentos no desenvolvimento humano corroem a resiliência futura

Com base nos riscos mais graves que devem impactar em 2023 – incluindo “Crise de abastecimento de energia” , “Aumento da inflação” e “Crise de abastecimento de alimentos” – uma crise global de custo de vida já está sendo sentida. Os impactos econômicos foram amortecidos por países que podem pagar, mas muitos países de baixa renda estão enfrentando várias crises: dívida, mudança climática e segurança alimentar. As pressões contínuas do lado da oferta correm o risco de transformar a atual crise do custo de vida em uma crise humanitária mais ampla nos próximos dois anos em muitos mercados dependentes de importações. A crescente frustração dos cidadãos com as perdas no desenvolvimento humano e o declínio da mobilidade social, juntamente com uma lacuna cada vez maior em valores e igualdade, representam um desafio existencial para os sistemas políticos em todo o mundo.

– À medida que a volatilidade em vários domínios cresce em paralelo, o risco de policrises se acelera

Choques simultâneos, riscos profundamente interconectados e erosão da resiliência estão dando origem ao risco de policrises – onde crises díspares interagem de tal forma que o impacto geral excede em muito a soma de cada parte. A erosão da cooperação geopolítica terá efeitos em cascata no cenário de riscos globais no médio prazo, inclusive contribuindo para uma potencial policrise de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconômicos inter-relacionados à oferta e demanda de recursos naturais. O relatório descreve quatro futuros potenciais centrados em escassez de alimentos, água, metais e minerais, todos os quais podem desencadear uma crise humanitária e ecológica – de guerras de água e fome à superexploração contínua de recursos ecológicos e uma desaceleração na mitigação e adaptação climática.

Alguns dos riscos descritos no relatório deste ano estão próximos de um ponto crítico. Este é o momento de agir de forma coletiva, decisiva e com uma visão de longo prazo para traçar um caminho para um mundo mais positivo, inclusivo e estável.

Confira os destaques dos cinco dias do Fórum Econômico Mundial

16 de janeiro – 1° dia

O primeiro dia da reunião anual do Fórum Econômico Mundial 2023 foi marcado pela realização da 29ª edição do Crystal Awards, uma premiação que homenageia artistas excepcionais e líderes culturais, cujas contribuições para a sociedade tiveram um impacto tangível na melhoria do mundo. Os ganhadores deste ano foram:

  • A arquiteta Maya Lin –  Possui uma notável carreira interdisciplinar por meio de suas aclamadas obras de arte e arquitetura, apresentando design sustentável e enfatizando uma conexão mais forte com a terra e a natureza.
  • A soprano Renée Fleming – Uma das cantoras mais aclamadas do nosso tempo, e grande defensora da pesquisa na interseção das artes, saúde e neurociência. Ela é consultora e fundadora de grandes iniciativas neste campo, incluindo a Sound Health Network na UCSF e o Neuro Arts Blueprint na Johns Hopkins University.
  • O ator, cineasta e humanitário Idris Elba – Como Embaixador da Boa Vontade da ONU para o FIDA (Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola), ele se concentra em questões relacionadas à segurança alimentar, mudança climática e conservação ambiental. Apoia causas relacionadas à pobreza, HIV/AIDS, jovens em situação de risco e desfavorecidos, saúde e educação.

17 de janeiro – 2º dia

Davos foi palco de discussões sobre a guerra na Ucrânia, energia, custo de vida, crise climática, comércio e metaverso. Os debates foram protagonizados por líderes de todo o mundo, como Alain Berset, presidente da Confederação Suíça 2023, Olena Zelenska, primeira-dama da Ucrânia, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, Liu        He, vice-primeiro-ministro da República Popular da China, Sanna Marin, primeira-ministra da Finlândia, e Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha.

Também foi dia de dobradinha brasileira no painel “Brasil: um novo roteiro”. Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, ao lado de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, cobrou o compromisso das nações desenvolvidas de repassarem aos países em desenvolvimento US$ 100 bilhões para a proteção ambiental, conforme o Acordo de Paris, de 2015.

“Nós temos uma boa regulação global, mas faltam os investimentos. Os 100 bilhões [de dólares] que eram o compromisso dos países desenvolvidos ainda não foram aportados. Nós temos que ter um aporte de recursos para ações de mitigação, como também de adaptação.” — Marina Silva, durante o Fórum Econômico Mundial

18 de janeiro – 3º dia

O dia foi reservado para reuniões sobre o futuro dos empregos, economia indiana, saúde e sua ligação com as mudanças climáticas. Foram ouvidos Aziz Akhannouch, chefe do Governo de Marrocos, António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, Olaf Scholz, chanceler Federal da Alemanha, e Ferdinand Marcos Jr., presidente das Filipinas.

Fernando Haddad, ministro da Fazenda, participou de discussões sobre parcerias internacionais e o desenvolvimento sustentável. Além de debater o futuro da agenda econômica na América Latina, Haddad defendeu a produção de energia limpa e disse que o continente tem vantagens competitivas em relação ao transporte desse recurso. O ministro ressaltou, ainda, que a integração dos mercados é uma questão central e que deve permitir a geração de empregos de alta qualificação.

“Em um mundo em que você tem três grandes blocos econômicos – os Estados Unidos, que nasceu federativo; a Europa, que vem se federalizando; e a China, que é um mundo à parte ele próprio -, se nós não pensarmos em formas de integração regional, eu acho que nós vamos ter muita dificuldade de decolar.”  — Fernando Haddad, durante o Fórum Econômico Mundial

19 de janeiro – 4º dia

Entraram na pauta das discussões assuntos relacionados ao comércio, igualdade e crescimento na Europa, com as contribuições de Yoon Suk Yeol, presidente da República da Coreia, e Kyriakos Mitsotakis, Primeiro Ministro da Grécia.  

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, participou do painel “Amazônia numa encruzilhada”, ao lado do governador do Pará, Helder Barbalho, e do pesquisador brasileiro, Carlos Nobre. Na ocasião, Marina apresentou propostas do Brasil para a preservação e o desenvolvimento da Amazônia, que foram muito elogiadas pelos convidados do Fórum Econômico Mundial.

20 de janeiro – 5º dia

O último dia de debates tratou sobre as perspectivas para a economia da Rússia, e discussões sobre política monetária dos bancos, inteligência artificial no ambiente de trabalho e avanços da ciência para soluções e desafios globais, como escassez de alimentos e energia renovável. 

Mas o destaque do dia foi mesmo o painel “Perspectivas econômicas globais: este é o fim de uma era?”, que contou com a participação de Kristalina Georgieva, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), Kuroda Haruhiko, chairman do banco central do Japão, e Bruno Le Maire, ministro da economia da França, são alguns dos nomes que integram a mesa “Perspectivas econômicas globais: este é o fim de uma era?”. 

O painel tratou sobre o futuro do crescimento econômico global e as políticas necessárias para que ela seja estabilizada, em meio à retomada após a fase mais crítica da pandemia e aos choques causados pela guerra na Ucrânia.


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