Investimentos em ESG podem ser afetados pelas eleições?

Cenário impede Brasil de atingir potencial em sustentabilidade

Por PEDRO KNOTH para Inteligência Financeira

A pressão internacional por índices ambientais negativos fez com que o Brasil caminhasse sob o atento olhar da comunidade global em 2022. Há um apetite do investidor estrangeiro e local por investimentos que se encaixem na agenda ESG , mas especialistas entrevistados pela Inteligência Financeira dizem que o Brasil ainda não aproveitou a onda sustentável plenamente.

Para piorar, a incerteza das eleições pode afetar aportes no setor?

O perfil do Congresso Nacional não mudou tanto nas eleições gerais de 1º de outubro para afetar pautas ESG. Mas as eleições para presidente podem ter impacto direto em propostas ambientais com a sociedade e com as empresas que mais se interessam por investimentos em ESG. Enquanto a incerteza sobre o próximo mandato pode afastar investimentos de impacto.

Eleição para presidente afeta ESG

De acordo com Caio Magri, presidente do Instituto Ethos, que reúne empresas associadas como Shell e Amazon, o poder de barganha da sociedade e dos empresários com o governo para promover a agenda ESG pode mudar de rumo a depender de quem ocupar a presidência em 2023.

“A diferença é se teremos ou não um governo que seja comprometido com essas políticas em sustentabilidade, meio ambiente e diminuição da desigualdade”, diz o presidente do Ethos. “A eleição do Lula é absolutamente fundamental para que isso aconteça”. Para o presidente do Ethos, os governos Bolsonaro e Temer foram uma etapa de luta contra “retrocessos” nas áreas que dizem respeito ao meio ambiente.

“É decisivo para as estratégias ESG de empresas efetivamente comprometidas, que têm que atacar propostas mais profundas, pressionar o Executivo e o Legislativo. As vozes que apareceram no cenário ainda não são suficientes”, afirma Magri.

A eleição presidencial importa mais que a geral — para Senado e Câmara — pelo fato de o Executivo ter mais controle, como destaca Magri, da política contra o desmatamento e outros crimes “anti-ESG”, como trabalho análogo à escravidão.

Outro aspecto da atual gestão que preocupa o presidente do Ethos é o orçamento secreto. A prática de emendas ocultas do Congresso “prejudica investimento em ESG”, segundo Magri. “As emendas de relator não travam um diálogo com a sociedade. Além da falta de engajamento entre empresas públicas e privadas, os índices de corrupção e falta de transparência afetam a segurança dos investimentos”, ele complementa.

Eleições não provocam mudança

Para Hugo Bethlem, presidente do conselho da consultoria Capitalismo Consciente no Brasil, as eleições não provocam tantas mudanças no rumo dos investimentos em ESG. Fundos negociados na Bolsa de Valores (ETF ) com critérios de sustentabilidade devem continuar a receber mais capital local e estrangeiro, porque são alocações pensadas para o longo prazo.

A cobrança do mercado financeiro sobre empresas para atender as agendas ESG continua alta, diz Bethlem, e as que cumprem aumentam em valor. “A questão não é política, ela é corporativa. Se as empresas não abrirem mão do o maior lucro para o stakeholder e abraçarem resultados econômicos com ética, o ESG não irá para frente no Brasil”, comenta.

Onda ESG em investimentos prevalece

Hugo Bethlem pontua que há uma tendência do mercado exigir princípios ESG de empresas. Essa onda vem do aumento dos mais jovens em cargos de liderança nas principais companhias; são executivos que entendem o comportamento de consumidores “millenials, GenZs e da Geração Alpha”, que preferem comprar de empresas que não agridem o meio ambiente, por exemplo.

Julian Tonioli, sócio-fundador da consultoria empresarial Auddas, aponta que ESG deve continuar como forte critério para análises de investimentos e até em captação de dívidas, mesmo depois das eleições. O fluxo de capital deve forçar mais empresas a aderirem a práticas sustentáveis.

“É uma tendência de longo prazo, independente de políticas e cenários eleitorais. Aqui [no Brasil], a dinâmica funciona assim: clientes e mercados pressionam por ações que acabam gerando posicionamento por parte do governo”, afirma Tonioli.

Livia Brando, diretora de Venture Capital da Vox, argumenta que o Brasil e a América Latina ainda estão nos primeiros passos no mercado de investimentos em ESG em relação ao mundo. “Mas a onda em ESG está chegando no Brasil. A Vox capta fundos de investimento de impacto e, conversando com gestores dessas instituições, fica evidente que o tema está ganhando importância no momento em que o investidor escolhe onde vai alocar os ativos”, diz Livia.

A especialista ressalta que, no Brasil, essa tendência só deve chegar um pouco mais atrasada que no resto do mundo.

Quanto vale o mercado de capital em ESG?

A tendência em ESG é reforçada pelo aumento do volume de capital com foco em empresas preocupadas com o bem-estar do planeta.

Um relatório do GIIN (Global Impact Investment Network) divulgado na semana passada aponta que o mercado de investimentos de impacto, que considera princípios do ESG, atingiu US$ 1,1 trilhão em 2022, crescimento de 62% em relação a 2019, quando valia R$ 712 bilhões.

O cenário econômico favorável e a estabilidade política, apesar de eleições polarizadas, tornam o Brasil um destino de capital mais atraente do que a China ou mais países da Ásia. “Basta saber se vamos aproveitar esse contexto. Ainda estamos em eleições indefinidas”, conclui Livia

Investidor estrangeiro mira três indústrias ESG

O investidor estrangeiro deve continuar a procurar fundos e empresas com preocupação ambiental no Brasil, acreditam os especialistas.

O capital de fora enxerga o Brasil como um “celeiro fértil” para aportes em energia limpa, ações sociais e preservação florestal.

Três indústrias devem ser favorecidas com investimentos estrangeiros em ESG pelos próximos anos:

  • Energia renovável
  • Geração de crédito de carbono
  • Preservação florestal e reflorestamento

As três têm amplo espaço para se difundir no país, com ótimas perspectivas de crescimento futuro acelerado, diz o fundador da Auddas.

Por outro lado, o Brasil sempre teve dificuldades de explicar quais são os pilares de ESG a serem desenvolvidos pelas empresas domésticas.

Bethlem relata que, em suas viagens pela Europa, investidores querem teses de garantia e estabilidade do país. “Tem dinheiro sobrando sim. Mas a realidade é que somos muito ruins de marketing”, comenta o sócio da Capitalismo Consciente no Brasil. “O Brasil tem um potencial ambiental pouco explorado. Os investidores são cíclicos. No curto e no longo prazo querem as diretrizes em ESG da empresa onde concentram investimentos. O capital só deve fluir se companhias esclarecerem metas sustentáveis a serem atingidas daqui para frente”, completa.

Pedro Knoth
PEDRO KNOTH – Repórter de Política e Economia formado pela FAAP. Atuou como freelancer para o UOL e como redator no Tecnoblog. Foi assessor de comunicação de Magazine Luiza, ESPM e Marfrig.

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