Não jogue fora suas competências!

Os idosos têm maturidade, experiência, competências e vivências para lidar com aspectos comportamentais e de relacionamentos, o que falta nas gerações mais jovens. Os muitos anos possibilitam esse positivo acúmulo, que um dia os jovens, ao se tornarem idosos, com certeza terão. Isso pode transformar-se em sabedoria, criando o arquétipo do “velho sábio”, na medida em que o idoso desenvolve sua consciência para resgatar a dignidade de seu papel na sociedade. Esse é um processo de aprendizagem que cada um deve enfrentar, se quiser chegar lá. 

Cada pessoa é única, mas, de forma muito geral, podemos dizer que os idosos querem sentir-se úteis à sociedade, que suas competências sejam usadas, que sua longa experiência de vida sirva de referencial para os mais jovens. O idoso, quando tem também o papel de aposentado, quer ser ativo e útil. Não quer “ficar no aposento”! Em nossa realidade brasileira, um grande número de idosos precisa receber uma retribuição financeira por seus serviços, para complementar o que recebem em suas aposentadorias, muitas vezes insuficientes para cobrir as despesas.

Os idosos têm muitas competências que podem ser úteis às organizações, quer seja onde tenham trabalhado, quer em outras que necessitem de seus conhecimentos. Isto gera um saudável movimento ganha-ganha, onde a organização ganha, o idoso ganha e porque não dizer que a sociedade também ganha. O ambiente organizacional precisa ajustar-se a essa tendência demográfica, pois os idosos, tendo trabalhado por décadas, não estão nessa fase da vida mais dispostos a longas jornadas de trabalho, a trabalhos nos finais de semana ou aturar chefes que não sabem liderar pessoas e equipes. Mas, dentro de suas realidades, trazem competências, lealdade e dedicação. Há iniciativas de uma nova legislação, o RETA – Regime Especial do Trabalhador Aposentado, que cria condições especiais para esse segmento, com estímulo à contratação de aposentados.

Os estudos de longevidade no Brasil mostram  que em poucos anos teremos mais idosos de 65 anos ou mais, que jovens de 14 anos ou menos. Isso significa que haverá uma grande carência de pessoas jovens para ocupar  cargos nas organizações, que precisarão recorrer a profissionais idosos. A grande oportunidade que se apresenta para as organizações depende da preparação das lideranças e dos próprios idosos para essa nova realidade que chega a passos largos em nosso país. Quais são algumas das ações que podem ser realizadas desde já?

Empresas

  • Realizar um diagnóstico para conhecer em detalhes a situação das pessoas que irão se aposentar, por exemplo, nos próximos cinco anos. Verificar quem é estratégico para as operações da empresa, e preparar a sucessão, ficando o idoso num novo papel de mentor/ coach, ou até continuar a exercer seu cargo, mesmo que já aposentado. 
  • Realizar Pesquisa de Clima Organizacional para identificar áreas mais favoráveis e receptivas ao trabalho dos idosos, além de fatores como motivação para trabalhar, preparo das lideranças e adequação das políticas de gestão de pessoas e equipes.
  • Revisar as políticas de recrutamento & seleção, remuneração e desenvolvimento de pessoas, para se adequar a essa nova realidade demográfica.
  • Ampliar a visão de tempo da empresa, saindo do imediatismo do curto prazo para uma visão mais de médio/ longo prazo.
  • Condução de palestras para sensibilização da organização para os impactos da longevidade aumentada

Lideranças 

  • Preparar e desenvolver a essencial transição dos chefes para líderes, complementando formações técnicas de cada especialidade com o desenvolvimento de competências de gestão de pessoas e equipes, como o papel do gestor x papel técnico, liderança, equipe, comunicação & feedback, crises e mudanças, reuniões, longevidade
  • Preparar as lideranças para o conhecimento das diferenças entre as diversas gerações e as melhores formas de relacionamento e comunicação. Um líder de 30 anos talvez precise liderar um profissional de 65 anos, e o contrário também é possível, e, em ambos os casos, o desenvolvimento de competências para essa realidade é mandatório.

Idosos

Os idosos têm competências e experiências úteis, que não podem ser desperdiçadas. Eles podem contribuir em atividades como:

  • Mentoria e coaching para profissionais jovens: a experiência e conhecimentos acumulados são uma enorme fonte de informações úteis aos mais jovens, e isto deve ser fortemente apoiado por todas as posições de liderança. Para se tornar um mentor é preciso uma cuidadosa seleção e preparação.
  • Inovações: os idosos têm muitas ideias e contribuições para melhoria de processos, para inovações em produtos e serviços, que podem ser colocadas em prática, trazendo bons resultados. Têm experiência e conhecimentos, têm tempo, imaginação, não estão mais pressionados pelas demandas do dia a dia e querem deixar marcas de sua passagem.
  • Representante da organização em associações profissionais: buscando conciliar interesses.
  • Executores de tarefas específicas: em função de necessidades, certas pessoas idosas poderão ter uma contribuição decisiva na realização de atividades especializadas e fornecer o know how necessário à busca de soluções. Esses profissionais podem preparar e conduzir cursos voltados a temas específicos de necessidade da organização. 
  • Registro da “memória”: muitas vezes o know how e experiências acumuladas pelos idosos se perdem com a sua saída. Ações coordenadas para registrar e organizar esse capital intelectual da organização resulta em evitar erros e difundir os conhecimentos acumulados. O apoio da área de TI a esse componente é fundamental para assegurar organização e acesso.

O coaching é especialmente necessário na decisão dos caminhos que cada um queira trilhar, para a preparação de ser menos executor e mais conselheiro, identificando as competências necessárias.

As organizações que querem ser bons lugares para se trabalhar, que geram orgulho nas pessoas em pertencer a seus quadros, que são reconhecidas pela sociedade e mercado como “amigas dos idosos” têm aí um roteiro básico do que fazer para aproveitar essa oportunidade demográfica, e sair na frente, antecipando-se às tendências e com isso incentivando a sustentabilidade e longevidade organizacional, devolvendo aos idosos que queiram integrar-se a esse projeto a dignidade pela qual tanto almejam.

Por Gustavo G. Boog, Coach, consultor, palestrante e escritor, Diretor da Boog Consultoria.


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