No eldorado das pastagens, conversão e conservação têm de estar lado a lado

Os investimentos são positivos, mas sem uma mudança cultural, que transforme a maneira de manejar e tratar as pastagens, veremos a repetição de problemas recorrentes.

As pastagens degradadas são o novo eldorado do agronegócio brasileiro. A fronteira agrícola mágica, que permite dobrar a produção sem abrir um novo hectare ou derrubar uma árvore para a implantação de novas lavouras.

A ideia da recuperação e da conversão de pastagens não é exatamente nova. Mas como tudo tem seu tempo, foi reembalada e, apoiada por um discurso que agrada aos ouvidos de compradores e investidores internacionais.

O Brasil atualmente acena para o mundo com um projeto que propõe a conversão de 40 milhões de hectares nos próximos dez anos, a um investimento total de US$ 120 bilhões. Há boa receptividade, com avanços nas conversas com instituições e governos de países como Japão, Coreia do Sul e Arábia Saudita.

O impacto desses investimentos, caso confirmados, pode efetivamente ser significativo, uma espécie de “pré-sal da agropecuária”, trazendo retornos com ganhos de produtividade com a intensificação no manejo dos rebanhos a partir da melhoria da qualidade das pastagens ou significativos aumentos de volume na produção de grãos com a sua utilização para a agricultura de baixo carbono.

Estudo realizado pela Esalq/USP estima que a conversão de 30 milhões de hectares – o que representaria um quinto do total das pastagens de baixa produtividade existentes no Brasil segundo a Embrapa – geraria um crescimento de 1,2% no PIB brasileiro.

Quanto mais sofisticado for o modelo adotado, maiores os retornos. O mesmo estudo, apresentado em um debate sobre o tema na Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat) há algumas semanas, indica, por exemplo, que a aplicação de um real para a conversão para o modelo de integração com a lavoura e florestas plantadas (ILPF) gera R$ 14 em impacto econômico.

Há incontáveis ganhos nesse processo, inclusive o potencial de exploração do carbono sequestrado com as boas práticas agropecuárias, que sempre paira no horizonte, embora ainda pouco palpável.

Esse círculo virtuoso é notório e tem movido iniciativas também de agentes privados. O fundo europeu Agri3 e o banco holandês Rabobank, por exemplo, oferecem no Brasil uma linha de crédito focada em investimentos para recuperação de pastagens, dentro de um programa chamado Renova Pasto.

Além de recursos, o programa possibilita aos pecuaristas a opção por uma assistência técnica personalizada, realizada pela Produzindo Certo, que inclui um diagnóstico detalhado das condições de cada pasto, assim como da infraestrutura da propriedade, e recomendações de ações para o manejo eficiente dos rebanhos.

O exemplo aponta como é importante compreender que a injeção de recursos é relevante, mas não transforma automaticamente culturas arraigadas em anos de atividade nas áreas hoje degradadas. Se chegaram a este estado de baixa produtividade não é por outro motivo senão pela maneira com que foram manejadas – ou abandonadas – ao longo de décadas pelos seus proprietários.

A conversão de pastagens exige dinheiro. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) estima em US$ 3 mil por hectare, em média. Mas o investimento não é pontual. Deve ser contínuo para que a degradação não seja visível, novamente, dentro de alguns anos.

Mas a recuperação não tem efeitos sem conservação. Sem uma mudança cultural, que transforme a maneira de manejar e tratar as pastagens, veremos a repetição de problemas recorrentes. Todo pecuarista conhece áreas que já foram recuperadas mais de uma vez em uma década, além de outras áreas com 40 anos de uso que nunca foram reformadas.

Assim, é crucial que se destine parte dos recursos dos programas de conversão para a capacitação da atividade, sobretudo de pecuaristas de menor porte e menor nível de adoção de tecnologia. A pecuária precisa ser profissionalizada através de métodos de um processo produtivo, como vemos na agricultura, por exemplo.

Existe hoje um abismo entre a chamada pecuária de alta produtividade, que necessita de alto volume de recursos, e a realidade da imensa maioria de pequenos produtores, que não têm condições financeiras e, sobretudo, conhecimento e capacitação para aprimorar a gestão e, portanto, o resultado de suas propriedades.

Enquanto uns ganham muito com a valorização de rebanho e terra e, com isso, geram receitas para investir em tecnologia, outros tendem apenas a extrair o que podem do solo – enquanto podem, sem sequer entender que pasto também é agricultura e, como tal, deve ser cultivado.

Os bilhões da conversão de pastagens deveriam ser vistos como a oportunidade da conversão de milhões de pequenos e médios para um novo estágio da produção agropecuária. Esse sim, seria o eldorado do agronegócio brasileiro.

Autora:

Aline Locks é engenheira ambiental, cofundadora e atual CEO da Produzindo Certo, solução que já apoiou a maneira como mais de 6 milhões de hectares de terras são gerenciados, através da integração de boas práticas produtivas, respeito às pessoas e aos recursos naturais. Liderou projetos com foco em inovação e tecnologia, como o ‘Conectar para Transformar’, um dos vencedores do Google Impact Challenge Brazil. Recentemente foi selecionada pela Época Negócios como um dos nomes inovadores pelo clima, é uma das 100 Mulheres Poderosas da revista Forbes e uma das líderes do agronegócio 2021/2022 pela revista Dinheiro Rural.


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