O DILEMA DO CONSUMO

possuir ou usufruir?

Por Capitalismo Consciente

“Quando começou a comprar almas, o diabo inventou a sociedade de consumo.” Millôr Fernandes

Do que você realmente precisa para viver bem e ser feliz? Em meados do século XVIII, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) distinguia as chamadas “necessidades reais” das “necessidades sociais”:

“é fácil ver que todos os nossos esforços são dirigidos para dois objetos somente – os bens da vida para si mesmo e consideração por parte dos outros”

Em um passado distante, a abundância proporcionada pela natureza e os limites das necessidades reais humanas complementavam-se mutuamente; com o tempo, porém, o desejo passou a se associar à posse, gerando uma tão forte quanto insana pressão social para ter em vez de simplesmente usufruir.

Usufruir x possuir: “Sua lã está crua e não processada”. Fonte: New Yorker Cartoons, 2019.

Nos primórdios do liberalismo econômico, uma das propostas centrais era, ironicamente, a autonomia, ou seja, interesses e necessidades definidos por indivíduos para si mesmos. No entanto, o que vemos hoje é uma enorme bolha de heteronomia – as necessidades individuais são definidas por opiniões de terceiros, modas e normas sociais.

Não que a moda e a vida em sociedade não sejam importantes; de fato, elas podem dizer muito sobre nossos avanços e conhecimentos conquistados ao longo dos séculos. O problema se instala, porém, quando elas se sobrepõem às demandas genuínas de cada pessoa, sufocando-as.

O escritor e filantropo americano Joshua Becker, autor do livro “The More of Less” (BECKER, 2018), promove o minimalismo em suas obras e há alguns anos integra o Projeto 333, um movimento cujos participantes vestem somente 33 peças de vestuário a cada três meses (PROJECT 333, 2020).

Muitos dos empresários mais bem-sucedidos do mundo também praticam o capsule wardrobe (guarda-roupa comprimido). O CEO do Facebook Mark Zuckerberg, por exemplo, usa blusas em tons de cinza todos os dias, enquanto o ex-presidente dos EUA Barack Obama só veste ternos azuis ou cinzas. Sobre seu estilo de se vestir, Zuckerberg diz:

“Eu realmente quero livrar a minha vida, para que possa tomar o mínimo possível de decisões sobre tudo que não for como melhor servir a comunidade”.

A fala do criador do Facebook tem fundamento científico. A energia do cérebro humano é limitada e o excesso de escolhas ao longo do dia provoca um cansaço cerebral conhecido como Fadiga de Decisão. O psicólogo social americano Roy Baumeister, pai da teoria, explica que, por menor que seja a decisão, sempre há um gasto energético e, por conseguinte, uma diminuição da capacidade de raciocinar bem (PSYCHOLOGY TODAY, 2006).

Fundadora do Projeto 333 em 2010, a ex-executiva de vendas de publicidade Courtney Carver explica: “A quantidade é somente um ponto de referência para manter um armário livre de excessos, algo aparentemente difícil diante da ascensão da moda descartável. É uma forma de aprender o que realmente significa a palavra ‘suficiente’”.

Assim como vários outros campos da nossa vida, o guarda-roupa também é obedece ao Princípio de Pareto. Em 80% do tempo, vestimos apenas 20% das nossas roupas. Tem a calça jeans “coringa” que sempre é usada, a jaqueta preferida e o sapato super confortável que não sai do pé – a grande maioria das peças que temos, no entanto, jamais ou quase nunca sai do armário.

O movimento consumerista brasileiro

No Brasil, as primeiras mobilizações relacionadas a questões de consumo surgiram em 1970, época da criação do Procon, em São Paulo, e das primeiras organizações civis de defesa do consumidor no Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba e Porto Alegre. Nos anos seguintes, o movimento ganha vulto e dita as bases para a consolidação de uma legislação específica para as relações de consumo: o Código de Defesa do Consumidor (CDC), instituído em 1990 (PLANALTO, 1990).

Com o respaldo legal necessário, temas como orientação e educação para o consumo e responsabilidade social das empresas emergiram, buscando transformar o consumidor em consumidor-cidadão, capaz de pensar e agir não apenas em benefício próprio, mas no de toda a sociedade.

Convite

Deixamos o convite para que você tente responder essa pergunta conosco: Quais são nossas necessidades reais e nossas necessidades sociais? Vale lembrar que consumo consciente não é deixar de consumir. Consumo consciente é consumir o suficiente, para atender nossas reais necessidades. Além disso, para ser consciente, o consumo também deve estar dentro de nossa realidade financeira.

Fique de olho em nossas redes sociais pois lançaremos um artigo com 7 INSIGHTS para você agregar mais consciência ao seu consumo.

REFERÊNCIAS

BECKER, Joshua. The More of Less: Finding the Life You Want Under Everything You Own. WaterBrook, 2018.

PROJECT 333, 2020. Bemorewithless. Disponível em: https://bemorewithless.com/project-333/ Acesso em: 15/12/2020.

PSYCHOLOGY TODAY, 2006. Decision Fatigue Exhausts Self-Regulatory Resources. Disponível em: https://www.psychologytoday.com/files/attachments/584/decision200602-15vohs.pdf?source=post_page Acesso em: 15/12/2020.

PLANALTO, 1990. LEI Nº 8.078, DE 11 DE SETEMBRO DE 1990 “http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%208.078-1990?OpenDocument”1990 Acesso em: 15/12/2020.

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