O gestor militante: Como o ESG entra na carteira da Fama, de Fabio Alperowitch

Por Natalia Viri em 11 de agosto de 2021

Se você se interessa por ESG, certamente já ouviu falar de Fabio Alperowitch.

Depois de quase três décadas de certa discrição, nos últimos anos o sócio-fundador da Fama, que tem R$ 2,8 bilhões sob gestão num fundo de ações, tornou-se um sonoro militante dos investimentos responsáveis e das causas ambientais e sociais.

Suas opiniões, quase sempre enfáticas, podem ser acompanhadas em seus posts diários nas redes sociais e nas diversas lives, cursos e podcasts de que vem participando desde que decidiu assumir o novo papel no mercado.

A postura pública pegou muita gente de surpresa, porque até então a Fama nunca havia sido vocal sobre sustentabilidade — embora sempre tenha feito barulho na agenda de governança corporativa “A gente não fazia questão de trazer o assunto de sustentabilidade até porque não tinha escuta. O brasileiro não se interessava por esses temas. Eram conversas muito mais densas quando falávamos com o exterior”, afirma, rechaçando a ideia de que o posicionamento é uma estratégia comercial. “Em relação à captação [do fundo], acho que muito sinceramente o ESG não pegou no Brasil”.

Alperowitch diz que a semente do ESG está presente na filosofia da Fama desde a fundação, em 1993 — quando o termo ainda não tinha esse nome — e nasceu de um pacto com seu sócio Maurício Levi, ambos então com 20 e poucos anos.

“Quando começamos, tínhamos US$ 10 mil sob gestão e rascunhamos um documento com os 10 mandamentos que queríamos seguir. Um deles era de que não investiríamos em nada que ferisse nossos princípios. Esse foi o embrião do que hoje é o ESG”, diz Alperowitch.

Com uma abordagem na seleção de ativos para o longo prazo, a gestora acabou atraindo investidores estrangeiros. Até hoje, 80% dos recursos vêm de grandes investidores institucionais de fora do país, especialmente europeus — um perfil que ajudou a trazer maturidade em relação ao tema ESG.

“De 2011 a 2018, fomos refinando o ESG dentro do nosso processo de investimento e evoluindo em muitas questões. A ambiental, por exemplo, passou a ser mais relevante com o tempo, mas era muito da porta para dentro”, diz o gestor.

Assim como no processo de investimento como um todo, a abordagem ESG praticada pela casa é mais baseada em saliva e sola de sapato que planilha de Excel: foca mais na essência e no conhecimento das empresas do que nas métricas, como forma de buscar resiliência e diferencial competitivo dos negócios.

O fundo, que costuma carregar entre 12 a 15 ações e tem pouco giro de carteira, tem entre suas maiores posições a locadora de veículos Localiza, a operadora de planos de saúde Notredame, a varejista de moda Renner, a papeleira Klabin e a incorporadora MRV.

Em entrevista ao Reset, Alperowitch contou como funciona o processo de investimento da Fama, o que o motivou a assumir o papel de evangelista do ESG e fez um balanço da sua versão gestor-ativista.

A seguir, os principais trechos da conversa:

Você costuma dizer que a Fama já faz ESG há muito tempo, desde antes de o termo ter esse nome. Mas o engajamento e a posição pública em relação a esses temas é mais recente. O que mudou?

No fim de 2018, algumas coisas aconteceram. Primeiro, a Fama completou 25 anos. Não sou muito de datas, mas um quarto de século para uma gestora de ações no Brasil é um marco e isso provocou uma reflexão.

Será que nosso papel é só gerir recursos, ou vai além? A gente não tem obrigação de trazer da porta para fora alguns debates que a gente tem da porta para dentro? Será que o mercado aqui, que ignora a questões socioambientais, não poderia ser provocado por nós de alguma maneira?

Além disso, na mesma época aconteceram duas coisas. Primeiro, a eleição e a posse do Bolsonaro. Trazendo para um lado mais pessoal meu, foi um processo muito pesado, que não tem muito a ver com a Fama. Motivou a indignação, a vontade de vocalizar mais essas questões.

Segundo, em janeiro de 2019, teve o desastre de Brumadinho, que significa muito, porque a Vale é a empresa símbolo da bolsa no Brasil, reincidente numa questão social e ambiental, deixando consequências que vão perdurar por décadas. Alguma coisa precisava ser feita. Essas três coisas ao mesmo tempo influenciaram para que eu começasse a falar um pouco mais.

Outro elemento mais recente é que, quando as questões ESG começam a virar mainstream no Brasil, começo a ver um risco de superficialidade, de reducionismo, de as práticas passarem a ser comerciais e não de essência. Acho que preciso elevar um pouco dessa barra, e isso não é por diferencial competitivo. É porque para as mudanças acontecerem precisamos do coletivo, mas se esse coletivo for superficial não vai adiantar nada.

Como funciona o processo de investimento de vocês? Como analisam as empresas e como o ESG entra nesse processo?

Quando a gente começou a Fama, com US$ 10 mil, nenhuma empresa abria a porta para dois moleques. E, no fim, isso foi uma coisa boa. Aprendemos a analisar indo no ponto de venda, ouvindo consumidor, falando com concorrente, com funcionário. E até hoje nosso processo de pesquisa é assim, de stakeholder — bastante qualitativo, longo, demorado e que envolve diversas etapas .

Costumo dizer que a pior fonte para saber o que está acontecendo numa empresa é a própria empresa, o executivo. Não porque ele minta, mas porque ele tem uma visão parcial e tende a ter dificuldade de ver quando não está no caminho certo.

O segundo ponto crucial no nosso processo é entender que nós mesmos somos enviesados, especialmente pelo fato de ficarmos muito tempo nas posições. Como vou manter a capacidade crítica num investimento em que eu fico tanto tempo?

Por isso, a gente dividiu a Fama em duas. Eu sou o construtor das teses de investimento, tenho uma equipe que trabalha comigo para isso. E meu sócio, o Maurício, está totalmente apartado, não faz parte do dia a dia, não participa das reuniões. O objetivo dele é destruir teses de investimento, servir como contrapeso. Em alguns momentos ele consegue e a tese é descartada. Em outros, ele traz um monte de perguntas, o analista tem que correr atrás e, se as dúvidas forem sanadas, a empresa é aprovada.

E como o ESG entra na análise das empresas?

Em toda a análise, é parte integrante do processo. Vai muito dessa percepção de essência. No fim das contas, se eu tivesse que espremer para te dar uma resposta objetiva, o que a gente busca são duas coisas: ética e cultura corporativa. Porque ainda que as empresas estejam defasadas em questões ESG, se a cultura corporativa é adequada, as coisas andam muito rápido.

Um exemplo: A gente investe na Arezzo, que tem uma cultura muito bacana, tanto do lado social quanto do ambiental. Talvez do lado ambiental, o despertar tenha sido tardio, mas a cultura, no sentido de como a empresa e as pessoas pensam, é muito boa, ainda que as práticas não estivessem lá.

Em 2018, mais ou menos, o Alexandre Birmann [CEO da Arezzo] alçou esse assunto para um outro patamar, viu que tinha que criar valor em cima disso. Em dois, três anos a empresa tem feito coisas muito legais, tanto nos processos quanto nas aquisições que ele fez. Ele trouxe a Reserva, que talvez seja uma das marcas mais preocupadas com essas questões. A mesma coisa quando eles compraram a Troc, que é um brechó online. Na Raia Drogasil, a mesma coisa. Tinha pouco processo e pouca coisa prática, mas muita cultura.

Muitas gestoras optam por ter um processo sistematizado para avaliar as empresas sob o prisma ESG, com frequência baseadas em scores para avaliar os pontos que consideram mais materiais em cada setor. Por que vocês não optaram por essa abordagem?

Primeiro, tenho que fazer uma ressalva. Por mais profundo que eu seja em ESG, minha vida é muito mais fácil do que a vida de um gestor de um grande fundo europeu, por exemplo. Eu invisto apenas em ações, em uma geografia, com portfólio concentrado e com turnover muito baixo. Basicamente eu preciso entender bem de 15, 16 empresas. A cada ano, troco duas, três empresas. É um processo muito mais artesanal, muito mais de essência e menos de métrica.

Um fundo grande multiclasses troca de gestor e tem que garantir que as políticas que estão lá vão permanecer. No nosso caso, os fundadores são os mesmos, estão aqui há 30 anos, é muito diferente. Usando uma analogia: o alfaiate, a Zegna e a Zara vendem terno. O alfaiate consegue ir nos detalhes, mas não consegue entregar muito produto. A Zara não consegue fazer detalhe, mas entrega escala industrial. A Zegna consegue ver um pouco de detalhe e um pouco de escala. O nosso estilo é alfaiataria.

Se nosso processo fosse baseado em pontuações, eu ia chegar para a Arezzo e falar: não tem inventário de carbono, não tem política formal disso, daquilo, e descartar. Não é o que a gente pensa.

A Fama tem uma lista de exclusão formal de setores, aqueles que, por política, vocês não entram?

Estatais, e aí não é setor, é categoria de empresa. É assim desde 1993. E a gente não investe em armas e fumo — um setor que não existe mais na bolsa brasileira, mas que, se não existisse, a gente não investiria. Isso é formal.

E tem um outro dogma nosso que, de certa forma, elimina algumas empresas problemáticas. A gente não investe em empresas que dependem mais de fatores macroeconômicos do que de fatores micro, portanto as companhias de commodities puras acabam ficando de fora. Mas aí a gente exclui tanto uma Vale quanto uma Suzano, que não tem problema de ESG.

E tem exclusões do ponto de vista pragmático. Vamos supor que tenha uma empresa que é altamente poluente, mas a gente gostasse à primeira vista. O fato é que eu tenho convicção que, em algum momento nos próximos anos, o carbono vai ser precificado no Brasil, então essa empresa certamente não vale o que as pessoas acham vale. Nesse caso, pragmaticamente, o investimento não faz sentido.

Principalmente quando se trata de descarbonização, muitas gestoras defendem a tese de continuar investindo nas empresas e se engajar para incentivar a mudança de práticas. Você é da tese de nem sequer investir. Por quê?

No Brasil, o engajamento nesses moldes é a mentira do século por várias razões. Primeiro, porque o ESG não pode ser visto da mesma forma em qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a grande maioria das empresas têm capital pulverizado. O que significa que um gestor que tem uma ideia, um posicionamento relevante, se engaja e consegue aglutinar um monte de apoio pode mudar o rumo da companhia.

Mas, por aqui, a maioria das empresas têm controle definido. Então, você pode espernear que, se o controlador não quiser, não vai fazer. O segundo ponto é que muitas assets se escondem atrás da questão do engajamento para terem o que querem na carteira. Se você investe numa Natura, ninguém vai te questionar. Mas, se você investe numa Vale, basta dizer que está engajado. Portanto, você pode investir em qualquer coisa.

Se você vai se engajar, o engajamento precisa obedecer a alguns critérios. Você está se engajando em que frente? Com quem? Como você vai reportar isso? O que você fará se a empresa não mudar e em quanto tempo? Dizer que está se engajando e mandar um e-mail por ano não adianta, nem do ponto de vista de provocar um impacto positivo, nem do ponto de vista fiduciário, com o dinheiro do cliente.

No Brasil, é raro que gestores de recursos se posicionem da forma que você faz. Qual o saldo que você vê desse
posicionamento, para o Fabio pessoa física e para a Fama? Foi uma boa exposição?

Não é uma estratégia que foi pensada com um objetivo comercial. A gente está numa situação de Brasil e de mundo que demanda alguns posicionamentos. O silêncio é um posicionamento também. Eu não sei se teria opção, de ficar quieto, independentemente se eu fosse gestor de recursos, empresário do setor de varejo ou qualquer outra coisa.

Foi bom para a Fama? Agrada muito algumas pessoas e desagrada outras. Ouvi muitas críticas e certamente muitas portas se fecharam. O balanço disso é difícil. Mas gosto de pensar de uma forma multidimensional. Todas as semanas sou chamado em alguma empresa para ajudar no desenvolvimento da estratégia de sustentabilidade. Empresas listadas, de dentro e de fora do portfólio, e não listadas também. Eu vejo, de certa forma, a gente ajudando a transformar a economia real. Isso é importante.
Intencionalmente ou não, esse posicionamento se traduziu em mais captação para o fundo?

Em relação à captação, acho que muito sinceramente o ESG não pegou no Brasil. Veja o fundo de fundos ESG da XP, que é super emblemático. Olha a qualidade das pessoas que a XP tem lá dentro, a capacidade deles de levar a mensagem para muitas pessoas — e tudo isso num momento em que a mídia espontânea sobre ESG é muito forte. Com tudo isso, o FoF deles tem R$ 40 milhões de patrimônio. É muito pouco. Do ponto de vista do investidor brasileiro, ainda não caiu a ficha. No momento em que cair, acho que acaba respingando para a gente que é bastante ativo no setor. Mas não estamos nesse momento ainda.

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