Por um Capitalismo Consciente

por Amanda Araújo para o Jornal O Povo em 24 de novembro de 2020

Movimento busca transformar maneira de fazer negócios, com uma gestão humanizada e sustentável

O capitalismo como conhecemos hoje está esgotado. Exemplos para isso não faltam, desastres naturais, fome. Porém, de acordo com o presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, Hugo Bethlem, “continua sendo a melhor forma de gerar riqueza e inclusão social das pessoas”. Para que isso dê certo, todos precisam ter oportunidades iguais, e a iniciativa privada é fundamental. Em entrevista por e-mail, Hugo explica o conceito de “Capitalismo Consciente” e as práticas necessárias para construir, a partir disso, uma sociedade melhor.

O POVO – O que é Capitalismo Consciente?

Hugo Bethlem – Capitalismo Consciente é focar os esforços de todos stakeholders, principalmente os gestores, na busca de um propósito maior, onde o lucro será consequência deste alinhamento. Enquanto se busca o lucro para o acionista, se gera riqueza para todos stakeholders, como colaboradores, fornecedores, consumidores, comunidade e o próprio acionista (shareholder). Como movimento, existimos para ajudar a transformar o jeito de fazer investimentos e negócios no Brasil, multiplicando os pilares que levam a uma gestão mais humana, mais ética e mais sustentável para diminuir a desigualdade.

OP – De que forma vocês trabalham esse conceito junto à sociedade?

HB – Nosso papel é de advocacy junto aos líderes empresariais que na verdade fazem a diferença, porque o negócio é o reflexo de sua gente, e as pessoas são reflexo de seus líderes. Então, se os líderes querem transformar seus negócios, eles devem mudar e transformar a si mesmos, como nos ensina Rand Stagen [palestrante de lideranças de negócios conscientes e diretor executivo da Stagen Leadership Academy]. Também por meio de palestras e webinars que fazemos, somados aos materiais distribuídos em nosso blog, chamado “Zine Consciente” para motivarmos e inspirarmos líderes e liderados.

OP – Quais são geralmente os argumentos do Instituto Capitalismo Consciente Brasil para convencer empreendedores e lideranças corporativas da necessidade de negócios mais preocupados com a questão social e ambiental?

HB – Um tema fundamental para o Capitalismo Consciente Brasil são os pilares e investimentos ESG (Ambiental, Social e Governança), onde acreditamos que apenas com uma governança estruturada com propósito e um líder consciente, a empresa poderá efetivamente investir com transparência em ações de sustentabilidade e responsabilidade social, com seus colaboradores e com a comunidade a quem serve. Toda empresa capitalista consciente deve ter valores rígidos de ESG, e todas as iniciativas de ESG devem ter consciência nas suas decisões.

OP – O senhor poderia citar cases no país de empresas que agem e colaboram efetivamente para o Capitalismo Consciente?

HB – Temos muitas empresas que assim o fazem, mas para exemplificar uso os dados apurados na Pesquisa Humanizadas 2018/19 e publicados no livro “Empreendedorismo Consciente – como mudar o mundo e ganhar dinheiro”, escrito por Rodrigo Caetano e Pedro Paro. Algumas são o Bancoob (sistema Sicoob), O Boticário, Natura, Reserva, Cacau Show, Jacto, Klabin etc. A Pesquisa Humanizadas 2020 já está em pleno processo de compilação de dados e deveremos ter novas empresas listadas no início de 2021.

OP – Os funcionários de empresas sustentáveis, em geral, são mais produtivos e felizes. Há dados que comprovam isso. Na sua opinião, por que ainda há negócios que não entendem isso?

HB – Não focaria apenas nas empresas sustentáveis, mas aquelas que têm os pilares do Capitalismo Consciente efetivamente praticados, como propósito maior, interdependência dos stakeholders, cultura e valores e liderança consciente, e que por consequência praticam efetivamente ações de ESG. Essas companhias têm colaboradores mais comprometidos e alinhados com esses valores e, desta maneira, são mais felizes e eficientes. Isso traz muitos benefícios para a empresa e para seus resultados, pois cuidam melhor dos consumidores, fornecedores e comunidade, tendo menos turn-over e sendo mais produtivos. Na Pesquisa Humanizadas os colaboradores das empresas citadas, são 224% mais engajados que os colaboradores da média das 500 maiores empresas do Brasil. Trabalhar por prazer gera muito mais retorno ao acionista também.

OP – Em relação ao papel da iniciativa privada para a construção de uma sociedade melhor. Houve avanço? Qual o cenário que temos atualmente? Ainda há muito espaço para o movimento crescer?

HB – Na nossa opinião, apenas a iniciativa privada, num mercado livre, pode gerar as mudanças que a sociedade necessita, pois todas as ONGs (Organizações Não-Governamentais) e governos unidos não têm essa capacidade. Por isso, cabe às empresas que geram riqueza, a responsabilidade por diminuir a desigualdade. Nós entendemos que o capitalismo continua sendo a melhor forma de gerar riqueza e inclusão social das pessoas, elevando a sua dignidade, desde que todos tenham oportunidades iguais. O desafio é ao mesmo tempo a oportunidade de mobilizarmos mais e mais empresas para mudarmos o jeito de se fazer investimentos e negócios para diminuir a desigualdade.

OP – Qual o papel dos líderes nesse movimento global do Capitalismo Consciente?

HB – O líder sempre dá o “tom” se a sua empresa pode curar uma dor ou causar uma dor na humanidade. O líder consciente deve ser capaz de organizar, mobilizar e engajar as pessoas para atingirem os resultados, alinhados ao propósito. Por isso, cuide das pessoas para que elas cuidem dos negócios, pois como diz Simon Sinek: “grandes líderes dão à todas as pessoas algo para acreditarem e, não simplesmente algo para fazerem”.

OP – De que forma a pandemia lança luz ao tema Capitalismo Consciente?

HB – Temos tido muita procura para entender esse momento. A pandemia infelizmente trouxe muitas mortes, perdas de emprego e fechamento de empresas, mas se levarmos somente isso, como as tristes lembranças, não teremos aprendido nada e teremos perdido uma enorme oportunidade de mostrar que o capitalismo para shareholders (acionistas) às custas dos sofrimentos dos demais stakeholders, não deu certo e não pode continuar. A pandemia é um sinal de desmando com o meio ambiente, a crise econômica e a injustiça social em ascensão revelaram que um sistema econômico que recompensa a maximização da riqueza acumulada sobre o bem-estar e que prioriza o individualismo sobre a interdependência está falido. Temos que, juntos e no longo prazo, criar um futuro onde todas as pessoas sejam capazes de trabalhar com dignidade e cuidar delas mesmas e de seus entes queridos, onde o planeta seja saudável e as economias progridam com sustentabilidade.

*Hugo Bethlem é presidente do Conselho do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, foi diretor geral da mesma instituição de 2017/2020. Administrador de Empresas e contador com especialização em gestão, empreendedorismo e governança – FGV, Cornell, Babson, IMD, Oxford e Stanford. Mais de 40 anos de experiência como executivo sênior em empresas de varejo, como Carrefour, Dicico e Grupo Pão de Açúcar.

REPRODUÇÃO

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