Se o G fosse prioridade

Há uma máxima matemática que diz que na multiplicação a ordem dos fatores não altera o produto. E isso é fato.

Numa transcrição desta premissa, dos números para o popstar  do momento, no mundo dos negócios, o ESG, permito-me uma licença poética e deduzo que o produto da multiplicação entre E, S e G, seria um mundo que respeita pessoas e planeta.

Partindo desta brincadeira séria, digo que nesta conta de multiplicação, sim, a ordem dos fatores altera o produto.

E não digo isto por entender que alguma destas 3 letrinhas (E, S, G) tão usadas e algumas vezes mal compreendidas seja a mais importante. 

Mas é fato que elas possuem uma correlação e há um jogo de forças entre elas, onde se bem articuladas, geram sinergia. O contrário também é verdadeiro, se vistas como isoladas e não como fractais do todo, acabam perdendo força e gerando menos impacto que o potencial que possuem.

Seguindo este raciocínio defendo que a ordem das letrinhas deveria ser alterada para GSE. Com o G sendo o primeiro fator da multiplicação.

É fato que transformações maiores nas organizações, de qualquer ordem, nascem no topo da liderança. Mesmo que os colaboradores desejem e até peçam mudanças, as mesmas só acontecem se a alta gestão as quer e as patrocina.

Sendo isso verdadeiro, há forte impacto do G no E e no S. Ações e movimentos que visem atender o Social (S) e o Ambiental (E) precisam de recursos, desde financeiros, passando por materiais, pessoas e tempo. E na esmagadora maioria das organizações estes recursos são administrados e disponibilizados pela alta liderança. Afinal, eu como bom administrador de empresas, aprendi que a função de um gestor é administrar os recursos para ter resultados. Ou seja, por mais boa vontade dos colaboradores, por melhores intenções que os times tenham, o fator limitante é a consciência da liderança. E liderança é o G da equação matemática.

Além do necessário patrocínio da liderança, o G também se impõe como primeiro fator da multiplicação pois é nesta letrinha que deve se ter políticas e processos que garantam compliance e transparência.

Como exemplo negativo cito o já exaustivamente explorado caso da Lojas Americanas. A organização tinha várias ações ESG, inclusive compunha o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3), até pouco tempo atrás (foi excluída do índice algumas semanas após o escândalo que abalou a companhia). Também emitia religiosamente um polpudo relatório anual de sustentabilidade. A edição digital de 2021 deste relatório tinha 159 páginas.

Mas que tipo de ESG acontecia nas Lojas Americanas? O que falhou? Falhou auditoria, falhou a área contábil? O que mais falhou? Falhou inicialmente a Governança e por consequência disto falhou compliance, falhou controles internos. Mas falhou, principalmente, a consciência da alta liderança do seu papel de dirigir uma grande organização que gera empregos, renda, impostos, riqueza para o seu ecossistema e para o país. A falta de consciência de que uma organização não deveria se encerrar em si mesma, pois ela tem responsabilidades econômicas, sociais e ambientais, e que quanto maior for, maior sua responsabilidade, mais chance de impacto positivo (ou negativo)e mais chance de gerar influência no seu ecossistema. Porque sim, as grandes empresas precisam assumir protagonismo nas causas que visam construir um mundo melhor para todos.

O movimento Capitalismo Consciente defende que é possível alinhar lucro e propósito, respeitando pessoas e planeta, levando prosperidade para mais pessoas.  E ensina que organizações conscientes são guiadas por 4 pilares: Propósito Maior, Liderança Consciente, Cultura Consciente e Orientação para Stakeholders.

Todos os pilares são importantes e são interdependentes. E tudo começa pelo Propósito. Aliás, sem propósito, sem impacto. Mas a Liderança Consciente, o G do ESG, é o fator limitante ou acelerador para termos uma Cultura Consciente que perpetue práticas humanizadas e uma Orientação para Stakeholders que compartilhe valor com todas as partes interessadas, de forma genuína e com poder de transformar a organização e seu ecossistema.

Sem G forte, menos E e S. E para termos um G forte ele precisaria ser prioridade. E como estruturas condicionam comportamentos, essa prioridade poderia ser visível, e isto poderia acontecer alterando-se a ordem dos fatores da equação matemática do ESG, colocando o G na frente. Não temos este poder de mudar algo já tão difundido, mas fica o convite de ao pensarmos em sustentabilidade, mentalmente pensarmos, invertendo a ordem da sigla ESG para GES. Essa mudança, permitiria dar mais relevância  às políticas que primam pela transparência e pelo cuidado com a vida. Pois sem vida, não teremos futuro e não teremos lucro.


Solon Stapassola Stahl é Colíder da Filial Regional do Capitalismo Consciente no Rio Grande do Sul


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