UM NOVO CAPITALISMO

“O Novo Capitalismo nos exige muito mais do que
boas práticas de gestão. Nos exige liderar de forma
consciente a cultura do negócio e o seu impacto nas
pessoas e no entorno.”

GRAZIELA MERLINA

Por vezes tenho o hábito de imaginar que as coisas e os conceitos têm vida própria e me flagro criando alguns diálogos imaginários. Uma dessas conversas foi com o Sr. Capitalismo. Sem pretensão, perguntei se ele se considerava velho demais para o mundo atual. Quase que num desabafo ele começou a discorrer.

— Sabe, minha querida, envelhecer é uma arte. Cabe a nós reconhecermos que já vivemos muita coisa, já fizemos parte de tantas vidas e histórias, mas se quisermos permanecer ativos e úteis, precisamos nos atualizar. Eu tenho buscado isso, usando as práticas da Nova Economia. Você sabe, né!? Mais colaboração, criatividade, abundância, acesso, circulação de riqueza, impacto socioambiental positivo. Mas sinto que sou constantemente desafiado por aqueles que insistem em viver no passado, naquele capitalismo que perdeu seu significado. Por isso, não me importo de me chamarem de Novo Capitalismo. Aliás, é nisso que
eu acredito.

— E o que é esse Capitalismo que perdeu seu significado? – pergunto.

— Bom. Eu nasci numa época que você não tem nem ideia do que foi. Nasci no pós-feudalismo. Lá acreditava-se que as pessoas nascem, crescem e morrem no mesmo estado social: nobre, clero ou servo. Não havia mobilidade. Acredite! Eu fui bem transgressor e regenerei esse Um novo capitalismo conceito. Com o Capitalismo Comercial veio a possibilidade de reconhecer que o trabalho tem seu valor e, portanto, ele pode ser uma moeda de troca, assim como objetos, dinheiro e outros ativos. Acreditou-se, então, que trocar riquezas era algo possível. Mas não se enxergava a possibilidade de aumentá-las, ou seja, tínhamos que lidar com a troca dos recursos e bens já existentes. Isso fez nascer uma nova crença: a riqueza existente pode ser redistribuída. Assim, não precisávamos mais ficar presos ao estado social no qual nascemos.

— E, além da mobilidade social, o que mais isso provocou?

— Um sistema econômico nunca é só econômico – ele também é social, político, e outros mais. A mobilidade social despertou a consciência de que as pessoas têm talentos e podem transformá-los em moedas de troca. Isso é muito maior do que nascer nobre ou servo. Gerar valor a partir do que somos e fazemos passou a ser central. Algo que prevalece até hoje nos negócios.

— Entendo. Geração de valor é a busca de toda e qualquer relação nos dias de hoje. Mas isso fica distorcido quando o valor é determinado por quem detém o poder econômico sobre os bens e o capital, não é!?

— Essa é uma grande distorção do princípio da livre troca entre trabalho e capital. Quando essa troca deixa de ser livre, é porque ela está trabalhando em função do acúmulo de riqueza na mão de poucos. A busca pelo enriquecimento rápido tira a liberdade como uma componente dessa equação de troca. De um lado tem a exploração e do outro, a submissão. Se não me engano, hoje chamam isso de relação abusiva.

Nesse momento, eu fiz uma pausa. Precisava de um fôlego. O Novo Capitalismo, esse que estamos aqui para reinventar, tem que fazer valer essa liberdade. Isso implica em mentalidades que tenham um propósito elevado, além do lucro. Que geram riquezas para fazê-las circular no sistema. Que olhem de verdade para aquilo que aprisiona ao invés de libertar: desigualdades, racismo, discriminação, alterações climáticas, destruição ambiental, violência. Assim, subitamente, me ocorreu uma próxima pergunta:

— E o que deu errado com essa crença de troca de riquezas?

— Um simples grande detalhe: não se acreditava que a riqueza poderia ser aumentada, mas, sim, apenas redistribuída. E a exploração tomou conta. A preocupação não estava em gerar riquezas, mas em deslocá-las de lugar. Comentei quase que lamentando:

— Explorar, extrair, usufruir foram fontes de muita degeneração. Sinto, então, que, depois disso, fomos para um outro extremo: passamos a nos preocupar em aumentar a riqueza sem importar como.

— Foi daí, filha, que entrei na minha 2a fase de vida. O Capitalismo Industrial. Foi uma revolução. O crescimento demográfico levou à necessidade de se produzir mais e melhor. Por um lado, tivemos avanços tecnológicos, aumento da produtividade e diminuição do valor da mercadoria. Por outro lado, no entanto, o produzir mais e melhor foi alcançado às custas de extensas jornadas de trabalho, baixos salários e condições precárias no ambiente de trabalho.

— Exatamente a imagem que o filme “Tempos Modernos” eternizou em nossas mentes… Então, primeiro, acreditamos que a riqueza precisava ser redistribuída (ou você estava do lado de quem toma ou de quem é tomado); depois acreditamos que dava para aumentar a riqueza, produzindo mais e gastando menos (ou você estava do lado de quem ganha ou de quem vira custo). Me parece que só o capital econômico entrava na equação. Onde estavam os outros tipos de capital: social, ambiental, cultural, emocional, intelectual?

— Por favor, não me faça rir. Eu poderia te fazer a mesma pergunta sobre os dias de hoje. Ou você acha que, nos dias atuais, esses outros tipos de capital entram na equação?

— Sei que nem sempre são levados em conta como deveriam, mas eles são a essência do Novo Capitalismo. Quando falamos em movimentos e práticas de Capitalismo Consciente, Capitalismo para Stakeholders, Pacto Global, Sistema B e ESG, é o impacto sócio-ambiental-econômico que está no centro das decisões dos negócios. Ainda temos muito a fazer, mas estamos claramente vivendo uma era de transição. Uma era de disrupção de verdades construídas para a valorização da essência humana criativa e cooperativa.

— Durante muitos e muitos anos, fomos míopes para esses impactos. Acredito que isso se acentuou ainda mais quando entrei na minha 3ª fase de vida – o Capitalismo Financeiro. Esse nome foi motivado pela união entre bancos e empresas. Quando estas passaram a vender parcelas de seu capital na Bolsa de Valores, o conceito de troca livre entre talento e capital foi deixado de lado, e o retorno máximo e rápido sobre o capital investido passou a ser a ordem da vez. Essa nova forma de fazer dinheiro gerou acúmulo de capital de forma cada vez mais desigual, dando a poucos os benefícios reais dos avanços da tecnologia, da globalização e do crescimento no fluxo de informações e conhecimento.

— Temos muitas lições aprendidas até aqui, não é mesmo!? Temos consciência de que precisamos de um novo modelo socioeconômico. Algumas coragens nos têm sido requeridas para que os contornos desse Novo Capitalismo consigam dar conta de tanta desigualdade social. Que coragens precisamos ter? Que medos precisamos enfrentar?

– pergunto, depositando todas as minhas esperanças nessa resposta. Fico um tempo à espera dela, mas daí me lembro de que esse papo é apenas imaginário. Não há respostas prontas, nem tão pouco um grande sábio que nos dirá o que fazer. Essas coragens requeridas cabem a nós, novos humanos de negócios. Coragem para abrir mão daquilo que traz retorno rápido para poucos
por aquilo que traz retorno sustentável para muitos e para o planeta. Para que o propósito de existir de um negócio esteja a serviço de curar as dores do mundo, regenerando e/ou deixando de degenerar os capitais ambiental, social, emocional, físico, humano.
Coragem para incluir todas as partes interessadas de um negócio em suas estratégias e práticas. Dar espaço àqueles que convergem e que divergem. Aprender a escutar necessidades, mesmo quando não são iguais às nossas. Ter a humildade de reconhecer que as boas ideias vêm da combinação entre o melhor de cada um. E que não adianta cada um dar o seu melhor isoladamente.
Coragem para liderar de forma humanizada e consciente. Colocar o cuidado e o respeito no centro das relações e das decisões. Compartilhar tanto os momentos de prosperidade, quanto os de crise.

Boas decisões nascem da inclusão e não da exclusão. Tornar o ambiente seguro o suficiente para que a colaboração e a criatividade superem a competição e o medo.
Coragem para incentivar aspectos da cultura organizacional que fortaleçam sua evolução e não permitir que se perpetuem comportamentos e hábitos tóxicos. Evoluir é se adaptar, renovar, recriar e, se preciso for, ter coragem para refundar o negócio para
que ele possa ocupar seu lugar de criador do futuro.

Que tal recapitularmos as fases do Capitalismo e como suas crenças atuam em nosso mundo de hoje? O Capitalismo Comercial, baseado na troca de riquezas, tirou as pessoas da crença da não mobilidade social. E como se dá isso atualmente? Podemos pensar, por exemplo, em pessoas que nascem sem condições mínimas de saúde, educação e moradia; ou em grupos de gênero, raça, religião, orientação sexual, etc., alvos de preconceitos, discriminação e racismo; ou em regiões cuja extrema pobreza é cada vez mais acentuada por mudanças climáticas, desmatamentos, moradias irregulares, falta de saneamento básico. Daí vem a pergunta: a mobilidade social é, de fato, possível? Ou a distribuição de riqueza praticada atualmente está desbalanceada a ponto de enriquecer alguns bolsos enquanto outros permanecem na linha da pobreza?

O Novo Capitalismo segue baseado no crescimento econômico, mas pressupõe que o ganho é coletivo. Não estar bom para todos
é não estar bom para ninguém. O Novo Capitalismo coloca impacto socioambiental positivo à frente das decisões. Isso implica diretamente em sermos intolerantes, vigilantes e denunciantes quanto à corrupção, à falta de ética nos negócios, à arrecadação
e uso incoerente dos impostos, ao não cumprimento das leis, às condições não favoráveis de trabalho, à diversidade e inclusão
não legitimas.

Havia uma época em que cheguei a acreditar que as pessoas que não se desenvolviam e não cresciam pessoal e profissionalmente simplesmente não se esforçavam o suficiente. Aprendi, na prática, que esforço com fome, sede e falta de higiene são ilusórios. Portanto, o Novo Capitalismo pressupõe vigiarmos, sim, os esforços, mas os esforços dos negócios em ter clareza de seu papel social; transparência em suas ações; mapear seus stakeholders e respectivos impactos a cada um deles (isso inclui o
planeta); tomar medidas para eliminar impactos negativos e criar impactos positivos; colocar na equação do lucro aquilo que acrescenta e aquilo que elimina valor em todo tipo de capital. E isso vai muito além de receitas e despesas.

Já o Capitalismo Industrial trouxe para as mesas de negócios aspectos como escala, acesso, valor do trabalho. Isso tirou as pessoas da crença de que não era possível aumentar riquezas. Ao contrário, evidenciou-se que é possível ter mais, fazer mais, ganhar mais – uma verdade perseguida ainda nos dias de hoje. Em algum momento de nossa história, começamos a lembrar na prática que onde há “mais”, há “menos” também. Os índices de poluição, violência, pobreza, analfabetismo, mortalidade, entre outros, evidenciaram que não se trata simplesmente de ganhar mais. Acima de tudo, é sobre “como” ganhamos mais.

O Novo Capitalismo nos exige muito mais do que boas práticas de gestão. Nos exige liderar de forma consciente a cultura do negócio e o seu impacto nas pessoas e no entorno. Isso implica em não restringir as decisões apenas pela viabilidade econômica de um projeto ou ideia, muito menos em olhar apenas para o curto prazo. Tudo o que precisamos está no nosso sistema, na natureza. Cabe a nós cuidar para que essa abundância possa estar no lugar certo, na hora certa, ao invés de se tornar escassez e, assim, encarecer recursos tão abundantes na natureza.

O surgimento do Capitalismo Financeiro trouxe a possibilidade real de sermos ao mesmo tempo investidores e investidos. Isso é fundamental para criar um fluxo de circulação do dinheiro. Como explicar então a falta de dinheiro por exemplo na Educação? Em 2022, cerca de 12 milhões de jovens, entre 15 e 29 anos, no Brasil, fazem parte da geração “nem nem”, nem estudam nem trabalham . Soma-se a isso o fato publicado recentemente pelo Fórum Econômico Mundial, constatando que 43% das empresas pesquisadas indicaram que devem reduzir sua força de trabalho devido à integração de tecnologia . Sendo essa uma realidade, não estamos falando em falta de dinheiro, mas em como e onde ele é aplicado.

Lembro fortemente quando iniciei minha jornada como consultora no ano 2000. Ao atender uma empresa do segmento industrial, havia
uma inquietação sobre a automatização da fábrica versus o preparo das equipes operacionais para lidar com o gerenciamento de informações e indicadores. A decisão, na época, foi a de implementar uma escola dentro da empresa, para o letramento básico de seus colaboradores em Português e Matemática. Sinto-me privilegiada ao viver esse exemplo prático de alocação do dinheiro em prol de um impacto social positivo.

A empresa poderia ter optado por trocar seu quadro de colaboradores sem a qualificação mínima, mas isso iria resolver somente o seu próprio problema, trazendo um enorme impacto social negativo. Ao invés disso, ela assumiu sua responsabilidade e papel social, direcionando o seu capital financeiro e intelectual para mudar a condição de vida daqueles colaboradores, muitos dos quais pais e mães, que mudaram, também, sua condição familiar, social, emocional e moral.

Trazendo para o Novo Capitalismo, podemos nos questionar qual o papel dos negócios nos novos letramentos: tecnológico, digital, empreendedor, emocional, e tantos outros que não devem estar a serviço de elitizar o trabalhador. Se um negócio prevê a diminuição da sua força de trabalho por conta da integração tecnológica, por que não investir no letramento digital de tantos jovens, pais, mães, cidadãos em geral, que podem ter a oportunidade de permanecerem ativos na sociedade? Lembrando, novamente, que para muitos deles não é apenas uma questão de fazer esforço – é uma questão de ter acesso.

Dessa vez, eu resolvi assumir a palavra do meu imaginário, resumindo:

— O Novo Capitalismo defende a alta performance para que as riquezas possam estar a serviço de circular no sistema socioeconômico, no qual a saúde, a educação e a moradia sejam para todos. E, assim, alta performance pode ser um lugar de equilíbrio entre desempenho e humanidade. Onde impacto positivo supera lucros insaciáveis. Onde a livre troca entre talento e capital nos faça reconhecer que cada potência humana é fundamental para sustentar o Novo Capitalismo.

REPRODUÇÃO LIVRO “Ensaios por uma organização consciente”

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