Os 15 anos da “verdade inconveniente” de Al Gore e suas lições para as novas gerações

Que a liderança ousada e corajosa de quem compreende o chamado global por corresponsabilidade pela emergência climática e as desigualdades seja fonte de inspiração para a mudança

Por Dario Neto

Há exatos 15 anos foi lançado um dos mais premiados e bem sucedidos documentários da história dos Estados Unidos: Uma Verdade Inconveniente. Dirigido pelo cineasta Davis Guggenheim, com roteiro do então candidato à presidência dos EUA, Al Gore, o filme foi um marco para conscientização e acentuação das discussões no mundo acerca dos possíveis impactos futuros decorrentes das mudanças climáticas.

O tom alarmista e catastrófico, entre críticas e aplausos, acabou por marcar uma geração e eu sou parte dela. Me recordo que, aos 15 anos, lendo toda a repercussão na mídia brasileira, decidi pela minha graduação em engenharia ambiental para tentar contribuir de alguma forma com a reversão deste alarmante cenário global. Entre toda a audiência e comunidade científica global mais cética ao tema, também tivemos, por exemplo, Cool It, um filme dirigido por Ondi Timoner em 2010, tentando trazer um contraponto mais racional ou “caminho do meio” entre o negacionismo climático e o apocalipse pelo clima.

Anos mais tarde e sem muitos progressos significativos em uma agenda global de desenvolvimento sustentável, em 2015, lançamos a nossa declaração global de interdependência – a Agenda 2030 da ONU – com 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e 169 metas para fortalecer a paz universal através de um plano de ação para as pessoas, o planeta e a prosperidade coletiva.

Mais cinco anos se passaram, ainda com baixa visibilidade dessa agenda e tímidos avanços, quando uma das maiores pandemias da humanidade nos assolou e testemunhamos uma surpreendente aceleração de inúmeras tendências globais, entre elas o ASG, debates sobre o impacto socioambiental dos negócios e o reset do capitalismo. Parece que despertamos à força de um inercial jeito de viver, consumir, trabalhar e fazer investimentos e negócios; um sono profundo pós-moderno assentado no egoísta e desumano capitalismo de acionista e na globalização.

Logo no início da chamada Década da Ação pela ONU, em agosto de 2021, quando o avanço global e gradual da vacinação começou a viabilizar o retorno da atividade econômica e social (quem sabe para como as coisas eram antes), tivemos mais um importante marco: o relatório do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – nos atualizando sobre o já atual 1,1°C de aquecimento global em comparação com níveis pré-industriais e os praticamente certos 1,5°C até 2040, desde que façamos a nossa desafiadora lição de casa mantendo as emissões de gases do efeito estufa em declínio ao longo dessa década e alcancemos emissões líquidas zero até a metade do século.

Al Gore falava de uma realidade futura e – sem entrar no mérito da forma e do conteúdo em si – ela chegou. Talvez até estejamos experimentando uma transição acelerada de consciência coletiva humana, mas ASG é pauta global sem volta porque não é mais possível fazer gestão e precificar risco dos investimentos e negócios sem considerá-lo.

As enchentes da Alemanha, Bélgica e China, as ondas de calor no Canadá e EUA, os incêndios na Austrália, o derretimento equivalente a um estado da Flórida no Ártico em menos de dois meses este ano ou uma das maiores crises hídricas do Brasil não são parte de um documentário ou livro de ficção científica mais e afetam a precificação do risco deste capitalismo as is. Que pena que estamos agindo só agora e por esta razão. Que bom que estamos agindo.

Enquanto escrevo este texto estou vendo meu filho de 4 anos, Miguel, fazer a sua lição de casa aprendendo a escrever as letras do alfabeto. Em 2030, quando a Década da Ação terminar, Miguel terá, se Deus quiser, praticamente a idade que eu tinha quando assisti Al Gore e escolhi minha profissão. A essa altura já saberemos e viveremos em um mundo – se tudo caminhar bem – 1,5°C mais quente ou até 2°C com todos os impactos sem precedentes que cada fração de temperatura implicará.

No encerramento do II Fórum Brasileiro do Capitalismo Consciente este ano, Luiza Helena Trajano, uma das maiores líderes empresariais e cidadãs do Brasil, trouxe um claro tom de ação. Não temos mais tempo para falar sobre as consequências da forma egoísta e autocentrada que fazemos negócios, consumimos ou investimos: precisamos agir logo. As desigualdades e a emergência climática clamam por atitudes concretas de governos, sociedade civil organizada e, especialmente, da iniciativa privada.

Neste mesmo Fórum do Capitalismo Consciente tive a chance de conduzir um bate-papo com Renato Franklin, CEO da empresa B certificada e associada do Capitalismo Consciente Movida, sobre o papel das empresas diante desta crise climática.

Renato é um daqueles líderes corajosos e vanguardistas que faz parte de um ainda pequeno grupo de lideranças empresariais do Brasil que entenderam verdadeiramente que ASG e toda essa conversa é e precisa ser muito mais do que uma obrigatória (e interesseira) pauta de gestão de riscos; trata-se de uma oportunidade valiosa de transformação cultural e de ressignificar o papel das empresas e a noção de sucesso para elas a partir de uma nova visão de liderança longo prazista e orientada por amor e cuidado para todas as partes.

Eu cresci e tomei decisões profissionais e pessoais assistindo Al Gore e acompanhando a Lava Jato prendendo algumas das maiores lideranças empresariais do Brasil. Em 2030, eu espero que o Miguel seja um adolescente que tenha a chance de se inspirar em milhares de lideranças empresariais verdadeiramente conscientes – como a Luiza e o Renato – que foram capazes de se apaixonar com profunda humildade e inquietude pela transformação do país também através das suas organizações e da sua liderança cidadã comprometida com um futuro coletivamente mais próspero, socialmente mais justo e ambientalmente mais sustentável.

Entre a atitude passiva e reativa de quem age para se manter vivo no jogo do capitalismo de acionistas gerindo riscos para preservar o status quo ou a liderança ousada e corajosa de quem compreende o chamado global por corresponsabilidade pela emergência climática e desigualdades, desejo profundamente que a consciência e o amor te conduzam a esta última.

*Dario Neto é Diretor Geral do Instituto Capitalismo Consciente Brasil.

REPRODUÇÃO

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